O Banco Central defendeu no Senado o acordo de R$ 300 mil com Roberto Campos Neto, formalizado em junho de 2025 por falhas de controle em US$ 338 milhões em operações de câmbio realizadas quando ele era diretor do Santander.
Acordos por falhas de câmbio no Santander
| Parte |
Valor |
Data do acordo |
| Roberto Campos Neto |
R$ 300 mil |
2 de junho de 2025 |
| Santander Brasil |
R$ 19,7 milhões |
26 de agosto de 2024 |
| Volume total de câmbio analisado |
US$ 338 mi (US$ 255 mi + US$ 83 mi) |
Audiência na CAE, 19 de maio de 2026. Fonte: UOL Economia
Coter conduziu processo sem participação da diretoria do BC
Em audiência na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado, o presidente Gabriel Galípolo explicou que o processo foi conduzido pelo Coter (Comitê de Decisão de Termo de Compromisso), instância interna independente da diretoria do Banco Central. O comitê identificou irregularidades cadastrais em 51 pessoas jurídicas que contrataram câmbio no Santander entre 10 de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2017, totalizando US$ 255 milhões, além de documentação incompleta de sócios e falha na verificação da legalidade de US$ 83 milhões em operações.
Galípolo afirmou que o processo é apolítico e técnico, desenhado para evitar tanto perseguições quanto proteções irregulares. O corpo técnico não identificou vantagens indevidas obtidas por Campos Neto. O Senador Renan Calheiros (MDB-AL), presidente da CAE, questionou se o órgão estaria blindando o antecessor. O BC tem decretado a liquidação extrajudicial de corretoras de câmbio em outros processos de fiscalização do setor, sinal de que o uso de instrumentos administrativos sancionadores no mercado cambial não é exceção.
Santander pagou R$ 19,7 milhões em acordo anterior
O diretor de fiscalização do BC, Aquino Santos, informou que outros diretores do Santander e o próprio banco também responderam a processos administrativos sancionadores relacionados às mesmas práticas. O acordo com a instituição foi assinado antes do de Campos Neto, em 26 de agosto de 2024. “Independentemente da multa, a instituição financeira tem que melhorar os seus controles, e foi isso que o Santander fez”, disse Aquino Santos aos senadores.
O senador Calheiros também questionou se o caso teria relação com as contas ônibus, mecanismo de concentração de transações de múltiplos clientes em uma única conta mantida em banco parceiro, proibido pelo BC neste ano. Em paralelo, o BC liberou a Visa Conecta para operar no mercado de câmbio, o que ilustra a atuação dupla do regulador: autorizar novos entrantes enquanto fiscaliza controles dos estabelecidos.
O que observar
O uso do termo de compromisso como instrumento de encerramento de processo administrativo, sem reconhecimento formal de infração, é um mecanismo previsto em lei e aplicado de forma ampla pelo BC, não exclusivo ao caso do ex-presidente. O que diferencia o episódio é a visibilidade política: a audiência no Senado transforma uma decisão técnica do Coter em objeto de escrutínio parlamentar. O ponto a acompanhar é se o BC manterá a separação operacional entre o comitê técnico e a diretoria quando o processado for um ex-dirigente de alto perfil, e se o relatório do Coter será eventualmente tornando público em detalhe suficiente para validar a tese de independência.
A questão das contas ônibus levantada no Senado adiciona uma camada: se o BC proibiu o mecanismo em 2026 após identificar riscos similares ao que motivou o processo contra o ex-diretor, a linha entre a decisão técnica e a evolução regulatória pode vir à tona em novos questionamentos parlamentares.
Fontes: UOL Economia • Let’s Money • Let’s Money