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BC perde 22% dos fiscais com 54% mais regulados em dez anos

BC perdeu 21,7% dos servidores de fiscalização desde 2015 enquanto regulados crescem 54% e ações de supervisão recuam 40%, revelam dados da LAI.

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Atualizado em

Foto: Agência Brasil

A diretoria de fiscalização do Banco Central perdeu 21,7% dos servidores desde 2015, caindo de 774 para 606, enquanto o número de instituições autorizadas a operar cresceu 54%, de 578 para 889. No mesmo período, as ações de supervisão recuaram 40%, de 1.198 em 2020 para 722 em 2025, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação.

Fiscalização do BC: dez anos de assimetria

Indicador 2015/2020 2025/2026 Variação
Servidores na fiscalização 774 (2015) 606 (2026) -21,7%
Instituições reguladas 578 (2015) 889 (2026) +53,8%
Ações de supervisão 1.198 (2020) 722 (2025) -39,7%
Instituições de pagamento 0 (2015) 203 (2026) +203

Dados da área de fiscalização do BC obtidos via LAI. Fonte: Valor Econômico

O escândalo do Master e o momento crítico da supervisão

O cenário numérico ganhou peso político após o caso Master. Paulo Souza, ex-diretor de fiscalização do BC, e Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária, foram afastados e passaram a usar tornozeleira eletrônica após serem acusados pela Polícia Federal de receber propina de Daniel Vorcaro em troca de acesso privilegiado às apurações internas do regulador. O Master está em liquidação extrajudicial por suspeitas de fraude e deficiência patrimonial.

O BC informou adotar “modelo de alocação de pessoas orientado por prioridades institucionais, evolução regulatória e avanços tecnológicos” para manter a efetividade da supervisão. Para Larissa Arruy, sócia do escritório Mattos Filho, o diagnóstico é preciso: “O Banco Central tem recursos limitados, naturalmente acaba fazendo escolhas. Nos últimos anos, elas foram muito centradas em fomentar a inovação e as infraestruturas que trouxeram capacidade para isso e agora talvez seja o momento de olhar para investimentos muito mais focados em supervisão e em assegurar a estabilidade do ecossistema”.

A complexidade do sistema adicionou pressão extra. O Master, por exemplo, operava a partir de um grande número de fundos de investimento fora do perímetro regulatório do BC, o que exige não apenas análise de dados, mas verificação manual de contratos. Esse esforço adicional recai sobre uma equipe reduzida que ainda precisará absorver a supervisão do mercado de criptoativos, trazido para o perímetro do BC ao fim de 2025. Em 2015, não havia nenhuma instituição de pagamento autorizada pelo regulador; hoje são 203. O histórico do desvio de R$ 11,5 bi no Master envolvendo 36 empresas ilustra o custo dessa lacuna.

IA, PEC e o debate sobre reconstruir a capacidade supervisória

Na CPI do crime organizado, em 8 de abril, o presidente Gabriel Galípolo comparou o BC brasileiro, com 3.068 servidores no total, ao Fed norte-americano, com 23 mil, e ao BC da Índia, com 13 mil. “A realidade é que o Brasil, muitas vezes, tem um servidor para acompanhar 30 instituições”, disse Galípolo, que pediu aprovação da PEC de autonomia orçamentária e administrativa do regulador.

O projeto está na CCJ do Senado desde 2023. O BC tem apostado no uso de IA para análise de portfólios de crédito, mas o próprio Galípolo reconheceu na CPI que as limitações de pessoal impedem extrair o máximo das ferramentas disponíveis.

O que observar

A assimetria entre quadro de servidores e complexidade regulada aponta para um risco sistêmico concreto: a capacidade supervisória não acompanhou a inovação que o próprio BC estimulou. A adoção da análise horizontal, que consolida múltiplas inspeções em uma só ação, mascara parte da queda nas ações de supervisão mas não elimina o gap operacional. A pergunta que fica é se o uso de IA conseguirá compensar a diferença antes que outra fraude de grande escala evidencie o custo dessa defasagem.

A PEC de autonomia orçamentária é a aposta estrutural da diretoria do BC, mas enfrenta resistência do sindicato dos servidores, que defende alternativas sem mudança constitucional. Vale acompanhar se o avanço da regulação de criptoativos, adicionando mais um segmento ao perímetro supervisório sem reforço proporcional de equipe, ampliará ainda mais a assimetria ou se catalisará o debate sobre financiamento adequado para o regulador.

Fontes: Valor EconômicoAgência BrasilLet’s MoneyLet’s Money

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