Francisco “Chico” Lopes, economista que criou o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central em 1996, morreu na madrugada de sexta-feira (8) no Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro. Tinha 80 anos e estava internado desde 22 de abril, quando sofreu uma parada cardíaca durante cirurgia para corrigir uma úlcera.
Chico Lopes no sistema financeiro brasileiro
| Ano |
Marco |
| 1986 |
Articulador do Plano Cruzado |
| 1988 |
Papel central no Plano Bresser |
| 1995 |
Assume diretoria de política econômica do BC |
| Jun. 1996 |
Cria o Copom por circular do BC |
| Jan. 1999 |
Presidente interino do BC por 19 dias |
Trajetória de Francisco Lopes no sistema financeiro brasileiro. Fonte: Valor Econômico
De Harvard ao Copom
Chico Lopes integrou o grupo de economistas da PUC-Rio que desenvolveu a teoria da inflação inercial, base teórica dos planos de estabilização das décadas de 1980 e 1990. Fez doutorado em Harvard, foi um dos articuladores do Plano Cruzado (1986) e teve papel central no Plano Bresser (1988). Em 1995, assumiu a diretoria de política econômica do Banco Central a convite de Persio Arida, então presidente da instituição.
Em junho de 1996, com o apoio do presidente do BC Gustavo Loyola, Lopes criou o Copom por meio de uma simples circular. O objetivo era conferir previsibilidade e transparência às decisões de juros, então tomadas sem rito formal. “Alguns achavam que o Copom era uma excentricidade minha”, disse Lopes em entrevista ao Valor Econômico. O mecanismo sobreviveu e se consolidou como o principal canal de sinalização da política monetária brasileira: hoje, o mercado calibra projeções para a Selic a cada reunião do Copom, 30 anos depois de sua criação.
19 dias e a banda endógena
Com o colapso do regime cambial em janeiro de 1999, Lopes assumiu a presidência interina do BC no lugar de Gustavo Franco. Tentou uma transição gradual para o câmbio flutuante com a “banda diagonal endógena”, um mecanismo que ampliava a faixa de oscilação do dólar em momentos de calmaria. O anúncio foi mal recebido pelo mercado e abandonado em dois dias. “Foi uma proposta que tinha a ingenuidade de ser complexa, apresentada em um mundo de políticos”, disse Lopes em depoimento ao projeto de memória do Banco Central. Ficou 19 dias no cargo.
A saída foi seguida de investigações no Congresso sobre a venda subsidiada de dólares ao Marka e ao FonteCindam durante a crise cambial. Lopes foi inocentado nos processos criminal e civil, mas teve o patrimônio congelado por 26 anos em processo administrativo no Tribunal de Contas da União (TCU). “Sua personalidade suave escondia uma mente irrequieta e independente”, afirmou Arminio Fraga, que sucedeu Lopes na presidência do BC e instituiu o regime de metas de inflação.
O que observar
O Copom completa 30 anos em 2026 como peça central da credibilidade monetária brasileira: transformou decisões de juros em atos públicos, previsíveis e tecnicamente fundamentados. A morte de Lopes ocorre num momento em que o BC segue investindo ativamente na própria credibilidade, em contexto de pressões políticas sobre o nível da Selic.
Vale acompanhar se o debate sobre independência institucional, conquistada formalmente apenas em 2021, ganhará nova dimensão a partir da reavaliação do legado de quem construiu, na prática, a governança que a lei veio formalizar décadas depois.
Fontes: Valor Econômico • Agência Brasil