Nas classes D e E, com renda de até R$ 800 por pessoa ao mês, a fatia de apostadores que pegou pelo menos um empréstimo durante a Copa do Mundo foi 2,21 vezes a dos não apostadores da mesma faixa de renda. A comparação está no estudo Raio X das Bets, da Klavi, montado com dados de Open Finance.
O estudo sai com as bets proibidas: a medida provisória editada em 25 de setembro baniu as apostas on-line, e o governo atribui queda de 10% no Pix à proibição das bets. Segundo o New York Times, a MP vale por até 120 dias; se o Congresso não a votar para torná-la lei, ela perde a validade.
Apostadores x não apostadores da mesma classe: quantas vezes mais comum foi tomar crédito
| Classe (renda mensal por pessoa) |
Razão entre as taxas de tomada de crédito |
| A (acima de R$ 12.500) |
1,51 vez |
| B (R$ 3.300 a R$ 12.500) |
1,61 vez |
| C (R$ 800 a R$ 3.300) |
1,78 vez |
| D e E (até R$ 800) |
2,21 vezes |
Estudo Raio X das Bets na Copa do Mundo 2026, da Inteligência Klavi, com 1.195.783 pessoas. Taxa de tomada de crédito: parcela do grupo com ao menos um empréstimo no período. Fonte: Klavi
Quanto menor a renda, maior a distância no crédito
Pôr lado a lado pessoas da mesma classe, segundo a Klavi, diminui a chance de atribuir à aposta o que é só diferença de crédito entre faixas de renda. A razão é de 1,51 na classe A e sobe a cada faixa abaixo. Na amostra inteira, 22,9% dos apostadores pegaram pelo menos um empréstimo na janela, contra 12,7% dos não apostadores, ou 1,8 vez.
Apostas: média de 196,6% da renda, mediana de 21,2%
Nas classes D e E, o fluxo de apostas equivaleu, na mediana, a cerca de 21,2% da renda observada nas contas. A média chega a 196,6%, número que o New York Times publicou como renda apostada por famílias de baixa renda. O estudo explica a distância: um mesmo real pode ir e voltar da carteira de apostas e ser contado de novo, e poucos apostadores muito intensos inflam a média. “O apostador típico das classes D/E não apostou toda a sua renda”, diz o relatório.
No recorte que o estudo chama de mercado total, essas faixas somaram só 3,7% do volume apostado em junho de 2026, e 64,3% do valor enviado às casas na Copa saiu dos 10% que mais apostaram.
Aposta antes, empréstimo depois
Na amostra inteira, entre quem apostou e pegou crédito, a aposta veio antes em 75% dos casos, com mediana de sete dias até o empréstimo. A Klavi não aponta causa: renda instável e dívidas anteriores também podem explicar a ordem. “É uma associação, não evidência de que a aposta causou o empréstimo”, ressalva o relatório.
Outro recorte opôs 33.505 estreantes, que fizeram a primeira aposta em junho de 2026 ou depois, a 466.227 pessoas que não apostaram em nenhum mês do painel, iniciado em agosto de 2025. No modelo, a trajetória dos estreantes se descolou em R$ 400,04 no crédito obtido em 90 dias e em R$ 1.760,91 no limite de cartão, medido só entre quem tem cartão. São estimativas, sem isolar a causa.
A base reúne entradas e saídas de conta corrente e cartão de 1.195.783 pessoas, ajustada pela Klavi por perfil demográfico, e compara a janela da Copa, de 11 de junho a 19 de julho de 2026, com as mesmas datas de 2025. A maior parte dos recortes considera só casas licenciadas, sem as loterias da Caixa, e apara extremos no percentil 99; a renda é a observada nas contas, não a declarada. A Klavi recebeu aval do Banco Central para iniciar pagamentos via Open Finance.
O que observar
Com a proibição em vigor, a dúvida é se a distância no crédito entre apostadores e não apostadores de baixa renda encolhe ou se o dinheiro migra para sites irregulares. Para credores, resta ver se modelos com dados de Open Finance vão tratar envios a casas de apostas como sinal de risco na baixa renda.
Fontes: Klavi: Raio X das Bets (versão em português enviada ao Let’s Money) • Klavi (versão pública em inglês) • The New York Times • Let’s Money: Governo atribui queda de 10% no Pix à proibição das bets • Let’s Money: Klavi recebe aval para iniciar pagamentos via Open Finance