A Binance entrou para o quadro de associados da ABcripto e integrará o conselho da entidade, encerrando uma divisão que marcou o setor cripto brasileiro desde 2021. O movimento ocorre enquanto o Banco Central avança na regulamentação de prestadores de serviços de ativos virtuais e stablecoins.
Agenda regulatória do BC para ativos virtuais
Tema
Escopo
PSAVs
Regras para prestadores de serviços de ativos virtuais
Stablecoins
Operações com ativos referenciados em moeda fiduciária
Governança
Padrões de controle e estrutura institucional
Compliance
Práticas de PLD/FT e proteção ao consumidor
Temas da regulamentação de ativos virtuais em andamento no BC. Fonte: Valor Econômico
De adversária a conselheira institucional
A relação entre a Binance e a ABcripto carrega uma história de conflito aberto. Em 2021, a associação apresentou denúncia ao Banco Central, à CVM e ao Ministério Público Federal contra a exchange por oferta de derivativos sem autorização. Por anos, a Binance atuou de forma independente nas discussões regulatórias do setor, fora do quadro institucional da ABcripto.
A entrada no conselho encerra esse capítulo. “O mercado brasileiro de ativos virtuais amadureceu significativamente nos últimos anos em termos de governança, compliance e diálogo regulatório”, afirmou Diego Perez, vice-presidente da ABcripto. Para Thiago Sarandy, diretor-geral da Binance no Brasil, a participação permite “contribuir de forma direta e propositiva na formulação de padrões e no diálogo com reguladores e formuladores de políticas públicas”.
O movimento também segue a integração da Binance ao Pix, em outubro de 2025, e a aquisição da corretora Sim;paul, que deu à exchange o status de CTVM, tornando-a a primeira exchange estrangeira a obter essa licença no país.
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O peso regulatório que muda o cálculo
A mudança ocorre num momento de inflexão para o setor. O Banco Central publicou as Resoluções 519, 520 e 521, em vigor desde fevereiro de 2026, que estabelecem requisitos de capital, governança e compliance para PSAVs, com capital mínimo que varia de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões por perfil de atividade. A Instrução BCB 701/2026 define regras específicas para stablecoins.
Com a Binance no conselho, a ABcripto passa a representar também a maior plataforma de criptoativos do país, com mais de 310 milhões de usuários e 20 licenças regulatórias pelo mundo, segundo a própria empresa. A governança da associação é descrita como multissetorial e colegiada, com representantes de diferentes segmentos do ecossistema de ativos virtuais.
O que observar
A composição de conselhos de associações setoriais raramente é notícia por si. O que torna este movimento relevante é o histórico e o timing: exchanges globais de grande porte participando de autorregulação têm peso desproporcional nas consultas públicas com o BC. A questão a acompanhar é se essa presença eleva o padrão técnico do debate ou concentra a agenda em critérios de compliance que favorecem prestadores com robustez regulatória consolidada, em detrimento de entrantes de menor porte.
No curto prazo, o período de adequação das PSAVs, em vigor desde fevereiro, terá novos prazos ao longo de 2026. Como a agenda do BC para stablecoins avança em paralelo, a participação de um ator global nas discussões técnicas pode influenciar tanto o ritmo quanto o escopo das regras. Vale acompanhar o posicionamento da associação nas próximas consultas públicas do BC sobre ativos virtuais.