O Banco Inter apresentou a “Regra 50” como nova âncora estratégica durante o Owners’ Day 2026 na sede da Nasdaq, em Nova York: a soma anual do crescimento de receita líquida com o ROE deve superar 50. O anúncio não evitou queda de 7,4% nas ações, terceiro dia consecutivo de perdas desde o balanço do primeiro trimestre.
Regra 50: composição da meta
| Indicador |
2025 (realizado) |
Meta |
| Crescimento de receita líquida |
45% |
Variável |
| ROE |
14% |
30% (até 2027) |
| Soma (Regra 50) |
59 |
≥50 |
Desempenho do Inter na Regra 50 em 2025. Fonte: Valor Econômico
Adaptação do Rule of 40 com ROE no lugar da margem
A Regra 50 é uma adaptação do “Rule of 40” usado por empresas de tecnologia norte-americanas, que mede crescimento mais margem de lucro. O Inter substituiu a margem pelo ROE e elevou o patamar para 50, refletindo o modelo de banco digital. “Estamos adicionando uma camada a mais nas nossas metas. Queremos manter o equilíbrio entre crescimento e rentabilidade, de forma sustentável. Mas tamanho importa também”, disse João Vitor Menin, CEO global do Inter. Em 2025, a soma chegou a 59, com 45% de crescimento de receita líquida e 14% de ROE.
A meta 60-30-30 permanece vigente: 60 milhões de clientes, 30% de ROE e 30% de índice de eficiência até o fim de 2027. O banco encerrou o primeiro trimestre com 44 milhões de clientes, 15,5% de ROE e 44% de eficiência. O CFO Santiago Stel afirmou que “a meta de 60-30-30 tem um prazo para ser atingida, a regra de 50 nós vamos atingir já este ano e nos próximos”, exibindo projeção que alcança 2029. Analistas leram o gráfico como sinalização de que o ROE de 30% foi deslocado de 2027 para 2029, interpretação que o Inter rejeita.
Ação cai 7,4% no dia do Owners’ Day
As ações do Inter (INTR) caíram 7,4% na Nasdaq, a US$ 6, em terceiro dia consecutivo de perdas desde o balanço do 1T26, quando o banco registrou lucro recorde de R$ 395 milhões mas viu a inadimplência acima de 90 dias subir para 5,1%. “Péssima escolha de momento para essa meta… a transição de um benchmark tradicional para uma estrutura tecnológica ocorre justamente quando o ROE tem convergido para um nível abaixo do prometido e o banco ainda enfrenta problemas de qualidade dos ativos”, avaliou o Safra em relatório.
No encontro, Menin detalhou o plano de expansão do crédito: o banco tem 9% de participação no Pix e quer replicar esse número na carteira de crédito, onde opera entre 1,5% e 2%. “No consignado privado, até 2029 devemos chegar nesse percentual”, disse. Apenas em produtos colateralizados em que já atua, o mercado endereçável é de R$ 2,9 trilhões, segundo o CEO. A estratégia passa por três pilares: superapp, data vault e a Seven, assistente de IA para clientes. Na presença nos Estados Unidos, o banco reportou 5,6 milhões de clientes com receita três vezes maior por usuário do que na base brasileira.
O que observar
O episódio ilustra uma tensão estrutural de bancos digitais com metas públicas de longo prazo: anunciar um novo indicador em período de pressão sobre qualidade de ativos tende a ser lido pelo mercado como ajuste de trajetória, mesmo quando os compromissos anteriores são reafirmados. A coexistência de métricas com horizontes diferentes cria ambiguidade sobre qual delas prevalece como critério primário de avaliação pelos investidores.
O teste concreto chega no segundo trimestre: se o ROE melhorar trimestre a trimestre, como sinalizou o CFO, a narrativa de ambidestria entre crescimento e rentabilidade ganha consistência. Se a inadimplência acima de 90 dias continuar subindo, a nova métrica pode reforçar a percepção de que o prazo para 30% de ROE foi estendido, e não apenas complementado por um indicador adicional.
Fontes: Valor Econômico • Finsiders Brasil • Let’s Money • Let’s Money