A divisão de startups do Google Cloud está redesenhando sua estratégia global para ampliar a presença na América Latina (LatAm), com novas contratações em São Paulo e Cidade do México voltadas a equipes de ecossistema e cobertura de fundos de venture capital regionais, segundo Darren Mowry, vice-presidente global de startups da companhia.
Google Cloud em LatAm: contexto do movimento
| Item |
Detalhe |
| Google Cloud Next 2026 |
Las Vegas; ~30 mil participantes |
| Startups entre os presentes |
Mais de 30% |
| Novos hubs de contratação |
São Paulo e Cidade do México |
| Enter: aporte captado (maio 2026) |
US$ 100 mi (Série B) |
| Enter: valuation |
US$ 1,2 bi |
| Enter: processos anuais no EnterOS |
300 mil |
Contexto da expansão do Google Cloud em LatAm. Fonte: Bloomberg Línea
Equipes de VC locais, fora do Vale do Silício e de Nova York
A mudança de rota foi apresentada por Mowry durante o Google Cloud Next 2026, em Las Vegas. O executivo, que chegou ao Google há cerca de quatro anos após passagens pela AWS e pela Microsoft, disse que a empresa está expandindo a equipe dedicada ao ecossistema de venture capital porque reconhece a existência de fundos relevantes fora dos centros tradicionais do setor. “O que estamos fazendo é expandir nossa equipe de venture capital porque sabemos que existem investidores e fundos específicos que não estão na Bay Area, nem em Nova York, que são construídos e crescem dentro da América Latina”, afirmou Mowry.
O plano inclui contratar não apenas profissionais de vendas e engenheiros, mas também pessoas focadas em incubação, aceleração e relacionamento com o ecossistema de capital de risco local, com base em São Paulo e Cidade do México. Para a divisão de nuvem, que já fatura bilhões com IA, o raciocínio é que a inteligência artificial nivelou o campo: fundadores em mercados fora dos Estados Unidos hoje têm acesso mais amplo a ferramentas para construir negócios relevantes e levá-los a economias desenvolvidas em prazos mais curtos.
Enter ilustra o argumento
O caso mais recente citado no ecossistema é o da Enter, startup brasileira de IA jurídica com sede em São Paulo que captou US$ 100 milhões em rodada Série B liderada pelo Founders Fund, de Peter Thiel, com participação de Ribbit Capital, Sequoia Capital, Kaszek, Atlantico e ONEVC. O aporte elevou o valuation da empresa a US$ 1,2 bilhão, tornando-a o primeiro unicórnio de IA jurídica da América Latina. Fundada em 2023 por ex-executivos da Wildlife Studios, a Enter processa mais de 300 mil ações judiciais por ano via seu sistema EnterOS, com receita que cresceu dez vezes desde a Série A e base de clientes triplicada no mesmo período.
Para a estratégia do Google Cloud, o exemplo serve como evidência de que o próximo grande negócio de tecnologia pode emergir de São Paulo tanto quanto do Vale do Silício. A empresa cita também a dinamarquesa Lovable como caso de startup criada fora dos EUA que alcançou escala global com rapidez, reforçando a tese de descentralização do ecossistema tecnológico. O Google Cloud, que concluiu a compra da Wiz por US$ 32 bilhões em sua maior aquisição até hoje, aposta que o próximo ciclo de crescimento vem de acompanhar fundadores em ecossistemas emergentes.
O que observar
A movimentação de uma processadora de nuvem em direção a fundos locais de venture capital sinaliza uma disputa por relacionamento que vai além da capacidade técnica: quem for o parceiro de referência dos fundos regionais tende a ser o fornecedor preferencial das startups que esses fundos financiam. O ponto a acompanhar é se as contratações em São Paulo e Cidade do México resultam em programas de crédito, aceleração ou benefícios de nuvem voltados especificamente ao ecossistema da LatAm, o que diferenciaria a oferta da de outros provedores globais.
No plano estrutural, a aposta na América Latina como celeiro de unicórnios de IA é coerente com o que os dados de captação mostram: o ecossistema regional passou a atrair fundos internacionais de primeira linha para rodadas de crescimento, e a janela para firmar presença nas primeiras etapas do ciclo de vida dessas empresas está aberta. A velocidade com que esse relacionamento for convertido em contratos de infraestrutura vai definir se o movimento é estratégico ou apenas de visibilidade.
Fontes: Bloomberg Línea • InvestNews