A Kamino, plataforma de gestão financeira para médias empresas com mais de 5 mil CNPJs ativos, anunciou um investimento de mais de R$ 40 milhões em inteligência artificial e lançou o Agente Financeiro, ferramenta que consulta e interpreta dados de fluxo de caixa estruturados dentro da própria plataforma, usando recursos da rodada de R$ 54 milhões captada em setembro de 2025.
Kamino em números (maio 2026)
| Indicador |
Valor |
| Clientes ativos |
5 mil+ CNPJs |
| Transações gerenciadas |
R$ 25 bi+ |
| Tempo do analista em tarefas repetitivas |
70% |
| Redução projetada em rotinas operacionais |
até 72% |
| Horas devolvidas por mês (projeção) |
até 200h |
Projeções internas da empresa. Fonte: Startups.com.br
O Agente Financeiro e a camada MCP
O produto central do investimento é o Agente Financeiro, apresentado em evento na semana passada. A ferramenta responde perguntas como “qual será meu caixa nas próximas semanas?” ou “qual despesa cresceu além do esperado?” sem depender de exportações para ferramentas externas. Para isso, a Kamino construiu uma camada de MCP (Model Context Protocol) que transforma o agente de passivo em ativo, funcionando como intérprete entre o modelo de linguagem e os dados financeiros de cada cliente: pagamentos, recebimentos, extratos e fluxo de caixa.
Rodrigo Perenha, CTO e cofundador, resume o papel da ferramenta: “Ajuda o CFO a ter respostas e ajuda o analista a ter as perguntas certas.” O roadmap prevê evolução do modo consultivo para execução autônoma: classificação de documentos, conciliação de contas, integração com bancos para executar pagamentos e antecipação de movimentos estratégicos, todos com supervisão humana em um primeiro momento. A empresa, que se posiciona como o cérebro financeiro das médias empresas, acumula mais de R$ 108 milhões captados desde sua fundação em 2021 e planeja uma Série B em 2027.
IA para dentro: código e operações internas
Além do produto voltado ao cliente, a Kamino implementou agentes de IA em seu próprio processo de desenvolvimento de software. Perenha descreve a mudança: tarefas que antes ocupavam dois desenvolvedores integralmente na correção de bugs agora são executadas em horas, e em alguns casos sem necessidade de validação. A consequência, segundo ele, é um reposicionamento do ritmo de crescimento: “Antes, a tecnologia pautava a velocidade do produto. Agora, quem pauta é a estratégia e o go-to-market.”
O investimento em IA cobre três verticais: produto, operação e desenvolvimento de software. Na vertical de operações, estimativas internas da empresa apontam que analistas dedicam 70% do tempo a tarefas repetitivas, com relatórios estratégicos que podem levar até 15 dias para ficarem prontos. A projeção é reduzir esse índice em até 72% e devolver até 200 horas por mês às equipes. A empresa não tem planos de expansão internacional e vê o mercado brasileiro de médias empresas como suficiente para sustentar o crescimento. Startups com foco em IA autônoma para PMEs têm levantado volumes crescentes para atacar o mesmo segmento em escala global.
O que observar
O modelo de agente que opera sobre dados proprietários estruturados representa uma aposta de diferenciação frente a assistentes genéricos: a qualidade das respostas depende da profundidade dos dados na plataforma, o que cria uma barreira proporcional ao tempo de uso. Quanto mais histórico financeiro acumulado, maior o valor da ferramenta, e maior o custo de troca para o cliente. Essa dinâmica favorece plataformas com base instalada robusta mais do que novos entrantes.
O desafio central é a distribuição. Atingir um número relevante de médias empresas exige canais que vão além da venda direta, como integrações com ERPs, escritórios contábeis ou parcerias bancárias. A transição do modo consultivo para execução autônoma de pagamentos e conciliação tende a ser o ponto de maior resistência: empresas de médio porte costumam ter processos de aprovação informais que não se mapeiam facilmente para fluxos automatizados. Vale acompanhar se a supervisão humana prevista para a fase inicial acelera a adoção ou gera atrito suficiente para retardar a demonstração de valor antes da Série B prevista para 2027.
Fontes: Startups.com.br • Let’s Money • Let’s Money • Let’s Money