A Pier Seguradora lançou um aplicativo dentro do ChatGPT, tornando-se a primeira seguradora brasileira integrada ao ecossistema da plataforma, com o objetivo de entender como interfaces de IA conversacional podem mudar a forma como consumidores descobrem, pesquisam e contratam seguros.
Pier Seguradora: números e produtos de IA
| Indicador |
Dado |
| Faturamento 2025 |
R$ 250 milhões |
| Projeção de crescimento 2026 |
+50% em receita |
| Total captado |
+US$ 50 milhões |
| Vistorias automotivas automatizadas |
~40% (Pier Scan) |
| Sinistros processados automaticamente |
~30% (Pier Bolt, em <1s) |
| Primeiro agente de IA próprio |
2021 |
Dados autodeclarados pela Pier Seguradora. Fonte: Exame
App no ChatGPT e a aposta na IA como canal
Na prática, usuários do ChatGPT podem fazer perguntas sobre coberturas, comparar produtos e iniciar processos de cotação sem sair da interface conversacional. A tese da empresa não é que o chatbot vai substituir a venda tradicional, mas que o comportamento de descoberta de produtos está mudando. “Talvez as pessoas parem de pesquisar clicando em links e passem a perguntar direto para a IA qual seguro contratar. A gente precisa aprender como esse novo comportamento funciona”, afirmou Camila Kataguiri, fundadora e CEO da companhia.
O contexto amplia a aposta: o Brasil ocupa a terceira posição global em uso do ChatGPT, com 140 milhões de mensagens por dia, segundo dados divulgados pela OpenAI. A Pier não é a primeira empresa financeira a explorar esse canal: a Experian lançou app de score de crédito dentro do ChatGPT em movimento semelhante. Globalmente, a insurtech espanhola Tuio foi a primeira seguradora aprovada pela OpenAI para operar diretamente na plataforma, com cotação e contratação completas sem sair da conversa.
Arquitetura própria e resposta ao avanço das fraudes
A Pier justifica a velocidade de integração pela estrutura tecnológica construída desde 2018: todos os sistemas da seguradora, incluindo cotação, vistoria, pagamento e análise de sinistros, foram desenvolvidos internamente. Em 2021, a empresa lançou seus primeiros agentes de IA próprios e passou a construir uma camada intermediária entre seus sistemas internos e fornecedores externos. Hoje opera simultaneamente com tecnologias da OpenAI, da Anthropic e de outros provedores. “A gente não pensa em IA como vitrine. A gente pensa em arquitetura e cultura”, afirma Camila.
O avanço das fraudes digitais é apresentado como um dos fatores que tornam essa arquitetura estratégica. Segundo a empresa, ferramentas de manipulação de imagens já conseguem contornar processos tradicionais de vistoria. Em resposta, a companhia passou a usar IA para detectar inconsistências visuais: cerca de 40% das vistorias automotivas já passam por automação parcial via Pier Scan, lançado em 2025. No seguro celular, o Pier Bolt automatiza parte dos reembolsos em menos de 1 segundo, respondendo por cerca de 30% dos sinistros. “Os fraudadores já estão usando muita tecnologia. Se a seguradora não usar IA também, ela simplesmente não consegue acompanhar”, diz Camila. A mesma lógica de IA aplicada ao setor impulsionou outra insurtech: a Azos captou R$ 125 milhões para expandir seguro de vida com IA acelerando aprovação de apólices.
O que observar
O dado de 140 milhões de mensagens por dia no Brasil vem da própria plataforma de IA, não de auditoria independente. A escala é relevante como sinal de comportamento, mas o que ainda não existe é evidência de que usuários de plataformas conversacionais tomam decisões de contratação de seguros a partir desse canal, e não apenas tiram dúvidas. A distância entre engajamento informativo e conversão comercial é o principal dado que falta no argumento de que a IA muda a distribuição.
O segundo ponto é regulatório: a contratação de seguros no Brasil exige processos específicos de divulgação, aceite e registro junto ao regulador do setor. Como isso se integra a uma interface conversacional é uma questão ainda aberta, e a resposta vai determinar se o canal funciona como vitrine, como gerador de leads ou como ponto de contratação completo. O antifraude via IA é o ângulo mais tangível: nesse caso, a corrida armamentista entre atacante e defensor é real, verificável e independe de mudança de comportamento do consumidor.
Fontes: Exame