O BIS (Bank for International Settlements) colocou o gasto em IA entre os quatro pressure points da economia global em seu relatório anual divulgado em 28 de junho de 2026. O órgão aponta que o capex bilionário de hyperscalers em capacidade de IA pode ser insustentável diante de gargalos de oferta e da disputa por liderança, que tende a inflar investimento na esteira de ondas anteriores de inovação.
Capex de US$ 1 trilhão concentrado em cinco empresas
Segundo o relatório, os cinco maiores hyperscalers, Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle, devem gastar mais de US$ 1 trilhão em capex relacionado à IA entre 2025 e 2026. O ritmo já supera lucro e fluxo de caixa livre dessas empresas, segundo o BIS, levando algumas a emitir dívida para sustentar o investimento. A escala ecoa a projeção da Nvidia de US$ 1 trilhão em chips de IA até 2027 e a disputa da OpenAI por US$ 100 bilhões em captação com gigantes de tecnologia.
Os quatro pressure points do BIS para a economia global em 2026
| Pressure point |
Tipo de risco |
| Sustentabilidade do investimento em IA |
Setorial |
| Inflação persistente |
Macroeconômico |
| Vulnerabilidades financeiras crescentes |
Sistêmico |
| Posições fiscais enfraquecidas |
Fiscal |
Pressure points listados no relatório anual do BIS publicado em 28 de junho de 2026. Fonte: BIS Annual Economic Report 2026.
Financiamento circular e ativo penhorado múltiplas vezes
Um dos pontos centrais do alerta é a opacidade do financiamento no setor. O BIS descreve um esquema em que fabricantes de chips e hyperscalers entram com participação acionária em laboratórios de IA ou provedores de neocloud, que em troca se comprometem a compras multianuais de chips e de capacidade computacional. Segundo o órgão, em comunicado que acompanha o relatório, os termos desses acordos costumam ser mal divulgados, com risco de o mesmo ativo ser penhorado em mais de um deal. O documento afirma que essas estruturas respondem por parte relevante do financiamento setorial e da receita projetada.
“As estimativas agregadas de crescimento de produtividade tendem a ser mais conservadoras, abaixo de 1% no longo horizonte”, afirma o relatório (em tradução livre), citando desafios para adotar a tecnologia em escala e integrá-la a processos produtivos. O número contrasta com o entusiasmo do mercado financeiro, que precifica ganhos muito acima.
Sinais para reguladores locais
O alerta global chega em momento sensível para o sistema financeiro brasileiro. Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, foi escolhido para presidir, a partir de 1º de setembro de 2026, o fórum de bancos centrais de emergentes no BIS, o que coloca o BC brasileiro no centro do debate sobre exposição a riscos sistêmicos vindos da IA. O próprio BC já havia alertado, em ata do Comef, que a IA pode ampliar risco cibernético no sistema.
O que observar
O alerta expõe duas frentes para reguladores e investidores institucionais. Está em jogo a sustentação dos múltiplos de mercado das plataformas de cloud e dos fabricantes de chips caso a produtividade real de IA fique abaixo do que o capex projeta. Há também risco de contágio se acordos de equity em troca de compra multianual de chips forem desfeitos, dado que parte relevante do financiamento setorial está amarrada nesses contratos.
Vale acompanhar se conselhos de bancos centrais que se baseiam no BIS incorporam esse diagnóstico em comunicados oficiais, e se gestoras de fundos brasileiros começam a divulgar exposição agregada a equity e dívida de grandes plataformas envolvidas no ciclo de capex de IA.
Fontes: PYMNTS • BIS Annual Economic Report 2026 • Galípolo no BIS