A subcomissão de ativos digitais e inteligência artificial da Câmara dos EUA realizou na quarta-feira (20 de maio) audiência sobre parcerias entre bancos e fintechs, com testemunhos que deixaram explícita uma tensão central: os modelos de Banking as a Service cresceram mais rápido do que os frameworks regulatórios conseguem acompanhar.
Testemunhas na audiência da Câmara (20 mai. 2026)
| Testemunha |
Instituição |
Posição central |
| Alexandra Steinberg Barrage |
Morrison Foerster / ex-FDIC |
Parcerias trazem oportunidade, mas exigem supervisão robusta e reformas direcionadas |
| Sheetal Parikh |
Treasury Prime |
Supervisão deve ser calibrada ao risco real, não genérica para todos os modelos |
| Henrietta Thomas |
Xero |
Parcerias são infraestrutura central do negócio, não feature periférica |
| Erica Khalili |
Lead Bank |
Banco patrocinador detém responsabilidade final pelo compliance, independente do modelo |
Testemunhas convocadas pela subcomissão de ativos digitais e IA da Câmara dos EUA. Fonte: PYMNTS
Parcerias como infraestrutura crítica
A audiência, intitulada “Parcerias para Inovação: Como as Colaborações entre Bancos e Fintechs Aprimoram a Infraestrutura Financeira” e promovida pela subcomissão presidida pelo deputado Bryan Steil (R-WI), abriu com um argumento que percorreu todos os depoimentos: parcerias entre bancos e fintechs não são projetos laterais, são infraestrutura central da entrega de serviços financeiros. Henrietta Thomas, gerente geral executiva de defesa, risco e compliance da Xero, sintetizou a tese: “A colaboração entre bancos, fintechs e a Xero não é uma característica do nosso modelo de negócios. É a base”, disse Thomas.
Sheetal Parikh, conselheira jurídica da Treasury Prime, reforçou a leitura técnica: as APIs funcionam como interfaces padronizadas que permitem troca de informações em tempo real entre bancos e fintechs enquanto mantêm o controle de depósitos, compliance e atividades de pagamento sob responsabilidade da instituição regulamentada. O argumento confronta a percepção de que modelos integrados diluem responsabilidade.
Quando o risco migra mais rápido que a supervisão
Alexandra Steinberg Barrage, sócia da Morrison Foerster e ex-diretora associada do FDIC, identificou o risco concreto da expansão não supervisionada dos modelos de BaaS: deficiências na conformidade com a Lei de Sigilo Bancário, fragilidades na manutenção de registros de contas e dificuldade para rastrear com precisão os saldos de clientes em plataformas interconectadas. “Na ausência de supervisão adequada, conhecimento especializado e gestão de riscos sólida, as coisas podem dar terrivelmente errado, com graves riscos para os consumidores e bancos patrocinadores”, afirmou.
Erica Khalili, cofundadora e diretora jurídica do Lead Bank, defendeu que o modelo banco-fintech só funciona quando a responsabilidade permanece com o banco: “A Lead detém a responsabilidade pela estrutura de compliance” e a distribuição por meio de fintechs não reduz as obrigações da instituição perante consumidores ou reguladores. O deputado Steven Lynch (D-MA) enquadrou o problema pela perspectiva do legislador: “Agora temos a FinTech chegando, e a cultura é a de mover rápido e quebrar coisas”.
A inteligência artificial surgiu repetidamente nos depoimentos como vetor de novas oportunidades e, ao mesmo tempo, como nova fonte de complexidade de supervisão, incluindo implementações de IA no combate à lavagem de dinheiro e em modernização de pagamentos. Steinberg Barrage também registrou que bancos estão se articulando para entender como lidar com depósitos tokenizados, tema que reúne reguladores e setor privado em busca de padrões ainda não estabelecidos. Parikh sintetizou a posição de quem opera dentro do modelo: “O pedido não é por menos supervisão. É por uma supervisão que seja adequada ao perfil de risco real de programas bem administrados.”
O que observar
O ponto de inflexão conceitual revelado pela audiência é este: os frameworks de risco de terceiros foram desenhados para relações com fornecedores, não para ambientes de banking integrado onde plataformas tecnológicas são parte da entrega do produto. A Equipe de Tecnologias Emergentes do FDIC foi citada como modelo para que reguladores desenvolvam profundidade técnica, mas a questão é se equipes especializadas conseguem escalar com a mesma velocidade com que IA, APIs e ativos digitais redefinem continuamente os modelos de parceria.
Vale acompanhar se a mudança de debate, de “se regular” para “como calibrar”, vai produzir padrões mais explícitos que distingam infraestrutura que melhora transparência daquela que reduz controle regulatório. Para fintechs que operam sob licença bancária de terceiros, o teste prático é se o ritmo legislativo americano vai criar pressão por mudanças estruturais nos modelos de parceria antes que as falhas de compliance que já aconteceram no ciclo de expansão do BaaS se repitam sob os novos modelos com IA.
Fontes: PYMNTS • Let’s Money • Let’s Money