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Crédito via fintechs cresce 20 vezes na Argentina

Empréstimos via fintechs saltaram de 500 mil para 10 milhões na Argentina, enquanto a inadimplência das famílias atinge 12,8%, recorde desde 2010.

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Shutterstock

Em seis a sete anos, o número de empréstimos concedidos por fintechs na Argentina pulou de 500 mil para 10 milhões de contratos individuais, uma multiplicação por 20, na conta de Mariano Biocca, diretor executivo da Câmara Argentina de Fintechs. O boom de crédito digital coincide com a pior fase de calote das famílias argentinas já medida: o banco central do país não vê patamar tão alto desde que passou a acompanhar o indicador, em 2010.

O movimento se encaixa na guinada econômica de Javier Milei. Por anos, preços disparados e sucessivas crises de dívida travaram a oferta de crédito. Agora, com a inflação mais contida, instituições financeiras e aplicativos voltaram a liberar dinheiro; do outro lado, o corte de subsídios do governo estreitou o orçamento doméstico e empurrou a procura por empréstimo para cima.

Juros de três dígitos para trabalhadores de aplicativo

E esse crédito costuma sair caro. Nas plataformas de entrega, o próprio entregador virou público-alvo de linhas com juros que passam de três dígitos ao ano: 131% no PedidosYa e por volta de 170% na carteira Personal Pay. Quando falta dinheiro para tirar a moto de um pátio ou pagar contas do mês, é a esse tipo de crédito que muita gente recorre, e a dívida vira bola de neve.

“Eles conseguem dinheiro fácil em carteiras digitais, mas não percebem os juros que estão pagando”, afirmou Enrique Tobani, um dos manifestantes que foram às ruas de Buenos Aires em agosto de 2026 cobrar alívio da dívida do governo.

Crédito e inadimplência na Argentina

20x: crescimento dos empréstimos via fintechs em 6 a 7 anos, de 500 mil para 10 milhões de contratos

12,8%: inadimplência das famílias em junho de 2026, o maior nível desde 2010 (era 2,8% no fim de 2023)

131% a 170%: juros anuais em empréstimos de PedidosYa e Personal Pay

6 mi: pessoas com atraso acima de 90 dias, quase um terço dos tomadores, estima a câmara do setor

Endividamento das famílias em nível recorde

A inadimplência das famílias chegou a 12,8% em junho de 2026, marca inédita na série do banco central argentino iniciada em 2010. No fim de 2023, quando Milei tomou posse, o índice estava em 2,8%. A câmara do setor calcula que perto de 6 milhões de argentinos acumulam mais de 90 dias de atraso, algo como um terço de quem tomou crédito.

Para especialistas, o quadro não é só macroeconômico. Quem se habituou a ver a inflação derreter o valor real das parcelas agora paga juros reais bem positivos, que tornam a quitação muito mais pesada. Em 28 de agosto de 2026, a associação de bancos ABAPPRA pediu ao regulador mudanças de norma que dariam às instituições mais margem para classificar quem está em atraso.

Comparação com o Brasil

O crédito privado argentino ainda é pequeno: equivale a 12% do PIB, longe dos cerca de 80% que o crédito às famílias no Brasil alcança. Por aqui, aliás, o tema preocupou as autoridades na semana passada, diante do avanço do endividamento doméstico com linhas caras e concessão pouco criteriosa, pressão que já levou a inadimplência a recorde no país.

“Uma situação externa mais sólida não lhe garantirá sucesso na campanha de 2027 se o endividamento das famílias, o consumo fraco e a precariedade do emprego continuarem a marcar o cotidiano”, afirmou Mariano Machado, da consultoria de risco Verisk Maplecroft.

O que observar

A rápida expansão do crédito digital pode ampliar o acesso e, ao mesmo tempo, concentrar risco em famílias de renda instável quando os juros reais ficam altos. Vale acompanhar se os reguladores flexibilizam a classificação de inadimplentes, como as plataformas de crédito digital calibram a concessão diante do atraso crescente e se o endividamento pessoal migra do debate econômico para o político.

Fontes: Valor EconômicoReutersLet’s Money, risco das famílias no créditoLet’s Money, inadimplência recorde no Brasil

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