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Abecs negocia novo ‘Desenrola’ para cartão e crédito pessoal
Abecs confirma discussão com governo sobre novo programa de repactuação que deve envolver cartão, cheque especial e crédito pessoal, com migração para crediário e Pix parcelado.
Dados compilados pela Abecs e divulgados no 19º Cmep. Fonte: Jornal de Brasília
Como deve funcionar o novo programa
A proposta, ainda em discussão, segue a lógica do antigo Desenrola, mas com escopo ampliado. Em vez de focar só em renegociação pontual de parcelas vencidas, o desenho inclui três frentes: desconto no estoque da dívida, taxa de juros menor na parcela renegociada e migração do saldo para linhas mais baratas. “A ideia é fluir as dívidas para linhas mais baratas, como o crediário e o Pix parcelado”, disse Giancarlo Greco, presidente da Abecs, durante a abertura do 19º Congresso de Meios Eletrônicos de Pagamento em São Paulo.
Ricardo de Barros Vieira, vice-presidente executivo da entidade, reforçou que a previsibilidade da parcela é o que define se a renegociação funciona ou não. “Estudos mostram que, tendo essa previsibilidade, com a parcela cabendo no orçamento, a inadimplência tende a ser bem menor”, afirmou. A equipe econômica deve divulgar os detalhes do novo pacote ainda em abril, segundo Vieira.
Além do desconto, o governo estuda uma renegociação com descontos que podem chegar a 80% em parcelas atrasadas e o uso do FGTS como fonte de liquidação, com saque extraordinário e desbloqueio de aproximadamente R$ 7 bilhões que hoje estão retidos como garantia do saque-aniversário.
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Parcelado sem juros fica de fora
Greco foi direto ao negar a volta da discussão sobre um eventual fim do parcelado sem juros, tema que voltou à mesa nas conversas anteriores sobre o teto do rotativo em 2023 e 2024. “Isso não está na pauta”, afirmou. É uma resposta ao mercado que passou a contar com o parcelado como funding barato: 74,4% do saldo atual de cartões está em parcelado sem juros, segundo a própria Abecs, e essa proporção é o que separa o cartão brasileiro do modelo internacional.
Vieira defendeu que a abordagem precisa ser estrutural, não apenas um ajuste de preço em um produto. “Você não resolve o problema do cartão, você resolve o problema do cidadão”, disse. O argumento da entidade é que o rotativo pesa menos na dívida pessoal do brasileiro do que a percepção pública sugere: são apenas 2,7% do endividamento das famílias, mesmo com 40 milhões de usuários ativos no produto.
A discussão acontece em um momento de alívio relativo no custo do rotativo. Segundo o Banco Central, o juro médio do rotativo caiu para 424,5% ao ano em janeiro de 2026, ante 438,2% em dezembro, uma queda de 13,7 pontos percentuais no mês e de 26,3 pontos em doze meses. Mesmo com a desaceleração, a modalidade segue como a mais cara do mercado e continua sob a trava da Lei 14.690/2023, que proíbe que o total de juros e encargos do rotativo e do parcelamento de fatura ultrapasse o principal da dívida, regra em vigor desde janeiro de 2024.
O que observar
Se o programa sair nos termos descritos, a grande pergunta operacional vira quem fica com o saldo migrado. Crediário e Pix por aproximação ou parcelado são opções estruturalmente mais baratas que o rotativo, mas têm lógicas de originação diferentes: o crediário favorece varejistas e bancos com exposição a PMEs, enquanto o Pix parcelado fora do limite do cartão beneficia bancos grandes com balanço para absorver o funding. Fintechs de crédito direto ao consumidor entram no meio disputando o mesmo bolso. Vale acompanhar se os reguladores vão tratar a transferência de saldo como portabilidade, forçando competição aberta, ou se cada instituição terá liberdade de migrar só a carteira que considerar rentável.
O segundo ponto é a reação dos varejistas e das bandeiras. A Abecs fechou a porta para o fim do parcelado sem juros, mas o tema tende a voltar toda vez que o governo discutir custo de crédito. Se o novo programa reduzir o estoque de dívidas ruins sem mexer nessa estrutura, a indústria ganha fôlego para continuar tratando o parcelado como infraestrutura. Se o desenho final acabar colocando pressão sobre o modelo, o efeito transborda para o crediário digital que redes de varejo vêm empurrando para outros lojistas como nova máquina de captura de margem no consumo financiado. A alternativa ao parcelado não é neutra: ela reacomoda quem captura a margem do consumo financiado no Brasil.