O mercado brasileiro de pagamentos digitais de pessoas para empresas se aproxima da saturação. Segundo análise da Bain & Company, os meios eletrônicos já responderam por 85% do mercado endereçável em 2025 e devem chegar a 96% em 2028, o que força bancos, fintechs, bandeiras e credenciadoras a trocar a corrida por novos clientes pela disputa de relacionamento.
Penetração dos pagamentos digitais (% do mercado endereçável)
| Ano |
Penetração |
| 2025 |
85% |
| 2026 |
91% |
| 2027 |
94% |
| 2028 |
96% |
| 2029-2030 |
97% |
Projeção da Bain & Company para meios eletrônicos. Fonte: Valor Econômico
De onde veio o avanço
A escalada foi sustentada pela inclusão financeira. A população com acesso a serviços bancários passou de 57% em 2017 para 90% em 2023, enquanto a fatia combinada de Pix e cartões nos gastos dos consumidores saltou de 35% em 2020 para 85% em 2025. O Pix, sozinho, já representa mais de 40% do mercado endereçável de pagamentos de consumo. O cálculo da consultoria cruza dados do Banco Central e da Abecs com o consumo das famílias medido pelo IBGE, eliminando dupla contagem entre arranjos como Pix e cartão.
“O que eu acho que surpreende é não daqui a 10 anos. É daqui a dois ou três”, afirmou André Mello, sócio da Bain. “Estamos bastante convictos de que, nos próximos três anos, matematicamente, a velocidade de crescimento da indústria tem que diminuir, porque realmente não tem muito mais espaço para onde ir.” Ainda assim, o setor deve seguir com crescimento anual de cerca de 9% até 2030, puxado pela expansão do consumo.
Para onde o setor vira
Com menos espaço para conquistar, a aposta migra para a principalidade e a diversificação de receita. Bancos emissores miram o crescimento das carteiras de crédito e a integração de produtos; credenciadoras avançam em serviços de valor agregado, como antecipação de recebíveis, crédito a lojistas e gestão de caixa; bandeiras buscam ampliar atuação em serviços e no segmento corporativo. “O mercado vai continuar crescendo. O que vai ter é uma desaceleração no crescimento relativo ao todo, justamente pela substituição do dinheiro”, disse Antonio Cerqueiro, sócio da Bain.
A maior avenida apontada é o pagamento entre empresas, mercado estimado em cerca de R$ 11 trilhões em 2025 e ainda pouco digitalizado, terreno onde movimentos como o hub de cartões virtuais para conciliação B2B e o recrutamento de fintechs de pagamento corporativo indicam a direção. A Bain também vê espaço em educação, serviços e transporte público, além de soluções que conectam o trilho de cartões ao Open Finance e o Pix em cobranças recorrentes. Em entrevista ao podcast Let’s Money em 2025, Edson Santos, consultor especialista em meios de pagamento, já apontava essa direção: “Eu não duvido que a gente vai ver emissores de cartões tradicionais dando crédito no Pix. Aliás, já estamos vendo.”

O que observar
Quando a penetração se aproxima do teto, a lógica competitiva muda de aquisição para retenção, e o custo de servir vira variável central. A pergunta que fica é qual ator captura a principalidade num mercado mais disputado: emissores que ancoram crédito e benefícios no dia a dia do cliente, credenciadoras que empacotam serviços financeiros para o lojista, ou bandeiras que avançam no corporativo. Vale acompanhar se a diversificação de receita compensa a desaceleração do volume sem pressionar margens.
O ponto operacional está nos segmentos pouco digitalizados. Conectar o trilho de cartões ao Open Finance e levar pagamentos eletrônicos a educação, serviços e transporte abre receita nova, mas exige integração e dados de fluxo que poucos hoje exploram. Com um pool de lucros estimado em cerca de R$ 120 bilhões e potencial de chegar a R$ 170 bilhões até 2030, o teste será se os participantes transformam a provocação de urgência em plano de ação de curto prazo, ou se o B2B segue como promessa adiada.
Fontes: Valor Econômico • NeoFeed • Let’s Money • Let’s Money • Let’s Money Podcast: O Pix acabará com os cartões?