Os bancos do país preveem dedicar R$ 50,4 bilhões a iniciativas tecnológicas em 2026, valor 8% acima do executado em 2025 e 58% superior ao patamar de 2021. A projeção integra a nova edição da Pesquisa de Tecnologia Bancária da Febraban, conduzida pela Deloitte e divulgada em 26 de junho.
Para onde foi o dinheiro em 2025
O orçamento tecnológico do setor somou R$ 46,8 bilhões no ano passado. Cerca de 64% (R$ 30 bilhões) foram para despesas correntes; os R$ 16,8 bilhões restantes entraram como investimento de capital, com software liderando a fatia, seguido de serviços de TI, hardware e telecom.
Orçamento tech dos bancos em 2025
| Item |
Valor |
| Despesas correntes |
R$ 30,0 bi |
| Capex em software |
R$ 6,8 bi |
| Capex em serviços de TI |
R$ 5,8 bi |
| Capex em hardware |
R$ 3,9 bi |
| Capex em telecom |
R$ 0,3 bi |
| Total |
R$ 46,8 bi |
Composição do orçamento tecnológico dos bancos em 2025, segundo a Pesquisa de Tecnologia Bancária da Febraban. Fonte: Valor
Na divisão por tema dos investimentos, cloud recebeu R$ 3,9 bilhões e inteligência artificial outros R$ 826 milhões em 2025, segundo o levantamento. A volumetria ajuda a explicar por que a Febraban tem destacado o salto digital do setor: em maio, o consórcio dos bancos divulgou que o Brasil cruzou pela primeira vez 200 bilhões de transações bancárias em um ano.
Cibersegurança virou prioridade unânime
A pesquisa coloca cibersegurança no topo da agenda das instituições financeiras: 100% dos bancos classificaram o tema como prioridade alta ou média. Cloud e IA generativa empataram em segundo, citados por 84% das instituições cada. Já IA tradicional foi mencionada por 80%; blockchain aparece em 32% e computação quântica fica em 8%, como tema ainda emergente.
“O crescimento do orçamento tecnológico dos bancos, aliado à previsão de R$ 50,4 bilhões em investimentos para 2026, mostra que o setor financeiro segue comprometido com inovação, segurança e eficiência”, afirmou em nota Ivo Mósca, executivo da Febraban responsável pelas áreas de inovação, produtos e segurança. A entidade tem reforçado o tema em série de manifestações públicas: o Santander chegou a alertar para a falta de cooperação em cibersegurança no setor em recente sinalização pública.
IA atrai capital, mas adoção ainda engatinha
Apesar do volume dedicado, mais da metade dos bancos consultados (56%) ainda está nos primeiros passos com IA, em fase descrita como de testes e construção de casos de uso. “GenAI já está presente e vem se expandindo entre os players do setor bancário, mas o grande desafio é avançar na sua escala e captura de valor”, afirmou em nota Sérgio Biagini, sócio da Deloitte responsável pelo levantamento.
Os bancos brasileiros que se anteciparam vêm mostrando ganhos mensuráveis. O Bradesco contabiliza 600 casos de uso de IA em produção com barramento próprio, e o Inter contabilizou 2 milhões de interações com seu assistente GenAI no canal do cliente. Em entrevista ao podcast Let’s Money em julho de 2025, Pedro Dumidi, coordenador de IA e Modelagem do Inter, descreveu o uso da tecnologia também na área de prevenção a lavagem de dinheiro: “Tivemos um aumento de 1480% no número de casos efetivos comunicados ao COAF”, disse, ao mencionar pipeline de PLD apoiado por IA generativa.
O reforço de orçamento também aparece na frente de pessoas. A pesquisa aponta 226,1 mil profissionais treinados em 2025 e 42% das instituições com plano de ampliar o time de TI, em crescimento médio de 22% no headcount da área.
O que observar
O ponto a acompanhar não é o tamanho do orçamento, é a distância entre intenção e captura de valor. Mesmo com IA citada por 80% das instituições e cifras crescentes destinadas ao tema, mais da metade ainda experimenta, enquanto bancos de varejo com casos isolados de PLD, atendimento e desenvolvimento de software já reportam ganhos operacionais mensuráveis. Vale acompanhar nos próximos balanços trimestrais se o reforço em talento (22% de expansão média no time de TI) começa a fechar a lacuna entre quem investiu primeiro e quem ainda está em fase de prova de conceito.
Em cibersegurança, o cenário é o inverso: a unanimidade na agenda não elimina o gargalo operacional. Como prioridade 100%, a pergunta deixa de ser “quanto investir” e passa a ser “como coordenar resposta a incidentes entre instituições”. Episódios recentes envolvendo provedores de serviços a fintechs reforçaram a leitura de que a defesa coletiva não acompanha o ritmo do ataque.
Fontes: Valor • Security Leaders • Febraban • Let’s Money Podcast: AWS Highlights at Febraban Tech 2025