A maioria dos bancos já decidiu que a próxima linha de defesa contra a fraude será a inteligência artificial. Em levantamento global com 101 instituições de 31 países, 75% dos diretores de risco disseram que pretendem colocar IA para vasculhar transações em busca de sinais de lavagem e crimes financeiros. O estudo foi conduzido pela EY em parceria com o IIF, associação que reúne bancos de todo o mundo.
IA na gestão de riscos, na visão dos CROs
| Indicador |
% dos bancos |
| Planejam usar IA contra fraude e crimes financeiros |
75% |
| Pretendem usar IA em risco operacional e cibersegurança |
72% |
| Apontam qualidade dos dados como principal desafio |
80% |
| Citam segurança e privacidade dos dados como barreira |
67% |
| Já colhem benefícios de casos de uso implementados |
12% |
Estudo global EY/IIF com 101 bancos de 31 países, 2026. Fonte: TI Inside
A corrida por IA contra crimes financeiros
O avanço acompanha a alta das ameaças. Na mesma pesquisa, a preocupação com crimes financeiros saltou para 43%, ante 23% um ano antes, enquanto a fraude digital subiu de 23% para 59%, segundo a EY. Diante do volume de transações, a triagem apenas humana deixou de dar conta.
Para Natalia Grigolin, sócia da EY Brasil, a conta não fecha mais no braço. “Por causa do alto e crescente volume de transações, fazer isso apenas com análise humana tornou-se impossível”, afirmou. Segundo ela, autoridades no mundo todo já estimulam o uso da tecnologia para filtrar indícios e apontar comportamentos atípicos. O movimento não é isolado: no Reino Unido, o regulador passou a oferecer dados sintéticos para treinar sistemas antilavagem, e no Brasil bancos e instituições de pagamento lideram o investimento contra fraudes.
O gargalo é dado, não algoritmo
Se a intenção é ampla, a entrega ainda engatinha. O obstáculo mais citado não é o modelo, e sim o insumo: para 80% dos executivos, o ponto fraco está na qualidade e no acesso aos dados. Logo atrás aparecem a proteção e o sigilo dessas informações, lembrados por 67%, e o déficit de repertório técnico em IA, apontado por 54%. Só 12% afirmam já extrair valor de projetos em produção, grupo concentrado nas instituições de maior porte.
O medo de que os modelos alucinem está no centro do debate. “A supervisão humana dos agentes de IA é necessária, motivo pelo qual o primeiro passo na implementação dos agentes é criar governança robusta”, disse Andrei Graça, sócio da EY Brasil responsável por IA e dados. Ferramentas que colocam agentes de IA para investigar crimes financeiros e casos em que a IA supera analistas humanos na detecção de fraude já existem, mas dependem dessa camada de controle.
Bancos grandes já sinalizam o caminho. Em entrevista ao podcast Let’s Money durante o AWS Symposium de outubro de 2025, Carlos Mazzei, CTO do Itaú, descreveu o Responsible AI como um investimento deliberado do banco antes de escalar qualquer solução, e resumiu a estratégia como “separar o ruído do sinal”.
O que observar
O intervalo entre intenção e produção é o dado mais revelador da pesquisa. A maioria das instituições financeiras ainda está estruturando governança e mapeando casos de uso, e a qualidade dos dados aparece como o verdadeiro fator limitante, à frente da tecnologia em si. Vale acompanhar se as instituições de maior porte, que concentram a experimentação, conseguem transformar pilotos em ganho mensurável de detecção sem abrir mão da supervisão humana. O ritmo dessa transição pode redefinir quem reduz perdas com fraude e custo de compliance nos próximos ciclos.
Fontes: TI Inside • EY • Let’s Money Podcast: Carlos Mazzei (Itaú)