O Bradesco BBI fechou o segundo empréstimo do programa EcoInvest em pouco mais de seis meses: R$ 100 milhões para a GCS Agropecuária converter 4,5 mil hectares de pasto degradado em lavoura-pecuária integrada na Bahia. O programa tem meta de R$ 30 bilhões em dois anos, mas contratou apenas R$ 200 milhões até agora.
Operações contratadas no EcoInvest
| Operação |
Banco |
Empresa |
Valor |
Data |
| 1ª |
Itaú BBA |
Adecoagro |
R$ 100 mi |
fim de 2025 |
| 2ª |
Bradesco BBI |
GCS Agropecuária |
R$ 100 mi |
abril de 2026 |
Operações contratadas no EcoInvest até abril de 2026. Fonte: Valor Econômico
Critérios do Tesouro frenam liberação de recursos
A estruturação do financiamento ao grupo Tiecher é por Cédula do Produtor Rural-Financeira (CPR-F), com vencimento em 10 anos e carência de dois a três anos. A taxa final é atrelada ao dólar e fica abaixo da taxa de mercado, segundo o banco, já que o EcoInvest combina recursos do Tesouro em modelo de blended finance. O custo médio da recuperação da área é de R$ 22 mil por hectare, com plantio previsto de soja, milho e algodão.
“Os critérios técnicos exigidos pelo Tesouro colocam os projetos na qualidade premium. São projetos de altíssima qualidade”, afirmou Caio Andrade Cesar, responsável pela área de ESG do Bradesco BBI. Entre as exigências, o grupo econômico beneficiado não pode praticar desmatamento em nenhuma de suas operações durante o prazo do empréstimo, e as empresas precisam entregar relatórios anuais com análise de solo. A verificação de monitoramento, divulgação e verificação, conhecida como MRV, encarece o ticket médio e limita candidatos elegíveis, segundo o executivo.
Meta de R$ 30 bilhões e 3 milhões de hectares
O segundo leilão do EcoInvest comprometeu R$ 30,2 bilhões em financiamento para a conversão de pastos degradados, dos quais R$ 16,5 bilhões sairão do Tesouro à taxa de 1% ao ano. A previsão inicial era converter até 3 milhões de hectares em dois anos. Até agora, as duas operações contratadas cobrem 8,5 mil hectares, equivalente a 0,28% do potencial.
A lentidão contrasta com o apetite do setor por linhas subsidiadas em meio ao ciclo mais adverso do agro desde 2022. O Banco do Brasil avalia estender prazos ao agro com inadimplência rural em 6%, e o Basa viu a inadimplência dobrar para 4,67% sob impacto da CMN 4.966 e da piora do setor. O Bradesco, por sua vez, integrou Ford e Volkswagen ao marketplace E-agro em março, sinalizando aposta em ganho de share fora do balanço tradicional.
Roberto França, diretor de agronegócio do Bradesco BBI, afirmou que o banco precisou garantir que a operação tivesse “aderência às regras regulatórias e aos critérios técnicos e ambientais do programa”. Para ele, o financiamento consolida “um modelo de crescimento baseado em aderência regulatória, gestão de risco e geração de valor”. O Bradesco BBI disse ter outros projetos em pipeline de análise, mas não estima quanto pode ser liberado nos próximos meses.
O que observar
O ritmo travado em 0,28% da meta após seis meses sinaliza que o desenho do EcoInvest, por mais rigoroso no papel, não consegue escalar sem ajuste na matriz de compliance. Vale acompanhar se o Tesouro vai rebalancear critérios como o de desmatamento zero no grupo econômico inteiro, ou se passará a aceitar projetos de ticket menor com MRV padronizado. Sem um desses movimentos, a meta de 3 milhões de hectares em dois anos parece fora do alcance das estruturas comerciais atuais.
No flanco bancário, a seleção de clientes já dentro da base relacional parece ser o caminho mais provável, o que favorece bancos grandes com carteira agro consolidada e deixa bancos de fomento e cooperativas com menos espaço para competir na origem. O próximo teste é se novos bancos privados vão entrar no programa nos próximos dois trimestres, ou se o EcoInvest se manterá concentrado em duas ou três instituições grandes.
Fontes: Valor Econômico • Tesouro Nacional