O Bradesco não vai desligar o mainframe para modernizar com inteligência artificial. Marcelo Bergamini, superintendente sênior de tecnologia do banco, defendeu ontem arquitetura híbrida: core bancário no mainframe, jornadas periféricas na nuvem.
Como o Bradesco divide as jornadas
| Tipo de jornada |
Ambiente |
Critério |
| Core bancário (débito/crédito) |
Mainframe |
Estabilidade, robustez e performance |
| Logs pós-transação |
Nuvem |
Menor custo e especialização |
| Integração de IA |
Mainframe + nuvem |
Ecossistema híbrido |
Segregação de workloads descrita por Bergamini. Fonte: Times Brasil
Avaliação por jornada, não substituição em bloco
Bergamini contesta a percepção dominante sobre modernização tecnológica. “Quando a gente fala em modernização, a primeira coisa que vem à mente é que a gente precisa desativar uma tecnologia. E não é esse o contexto”, disse o executivo. Para ele, o ponto central é modernizar a arquitetura, avaliando o potencial de cada tecnologia antes de qualquer decisão de migração.
A lógica parte da criticidade de cada sistema. O core bancário, como operações de débito e crédito, permanece no mainframe quando essa for a melhor alternativa em estabilidade, robustez e performance. Para processos periféricos, a equação muda. Bergamini usou como exemplo a geração de logs após a confirmação de um empréstimo: “Eu não preciso usar o mainframe para isso. Eu tenho alternativas mais especialistas nesse tipo de operação e que gastam menos”, afirmou. O raciocínio se alinha à pressão sobre a infraestrutura bancária para suportar IA generativa, que exige ambientes mais flexíveis sem comprometer as operações centrais.
Transição começa pelas jornadas menos críticas
A estratégia declarada é deliberadamente gradual. O ponto de partida são as jornadas de menor criticidade para o negócio, sempre com governança, segurança e alinhamento ao uso de IA e a métodos modernos de desenvolvimento. Mudanças bruscas no core não fazem parte do plano. “Eu não preciso dar um cavalo de pau no transatlântico”, afirmou o executivo.
A abordagem tem implicação direta para a arquitetura de dados. O objetivo é separar jornadas que podem ser tratadas com tecnologias orientadas a eventos, onde a nuvem performa bem, daquelas que dependem do mainframe. “É exatamente isso: separar jornadas que eu posso tratar com tecnologias de eventos, em que a cloud funciona bem, e aquilo que envolve o meu core, manter no mainframe”, disse Bergamini. Esse tipo de redesenho arquitetural é condição para que agentes de IA autônomos em operações bancárias operem com a confiabilidade exigida do core.
O que observar
A tese da coexistência entre mainframe e nuvem é tecnicamente defensável, mas o ponto que vale acompanhar é a camada de integração. À medida que modelos de IA precisam acessar dados em tempo real do core bancário, a latência entre mainframe e serviços em nuvem pode criar fricção onde hoje não há. Plataformas de orquestração, middleware e soluções de event streaming são os atores mais diretamente impactados por esse redesenho arquitetural.
Vale considerar o contexto do evento: a declaração foi feita em encontro co-promovido por fornecedor de tecnologia com portfólio em soluções de mainframe, o que não invalida a tese, mas situa o ambiente em que foi apresentada.
Fontes: Times Brasil • Let’s Money • Let’s Money