A Block, dona do Cash App e comandada por Jack Dorsey, fechou um acordo de US$ 45 milhões com 46 estados americanos para encerrar a investigação sobre falhas de proteção contra fraude no aplicativo nos EUA. O caso mira o coração do modelo de pagamento entre pessoas: dizer ao usuário que o dinheiro está seguro sem entregar as garantias de um banco.
O acordo do Cash App em números
| Item |
Valor / termo |
| Acordo multiestadual (2026) |
US$ 45 mi, 46 estados |
| Investigação liderada por |
Oregon e Texas |
| Restituição do acordo com a CFPB (jan/2025) |
US$ 75 mi a US$ 120 mi |
| Suporte obrigatório agora |
Humano ≥13,5h/dia; chat ≥18h/dia |
Termos do acordo multiestadual e da restituição prometida à CFPB. Fonte: Oregon DOJ
O que os estados dizem que a Block fez
Segundo os estados participantes, a Block disse aos usuários que o dinheiro estava seguro, sugerindo que o Cash App funcionava como um banco, com as mesmas proteções. Ao mesmo tempo, afirmam, a empresa sabia que a fraude na plataforma crescia rápido e, em vez de avisar ou reforçar barreiras, redobrou o marketing.
Os estados vão além: dizem que a Block em alguns pontos facilitou o golpe, com verificação mínima de identidade no cadastro, ausência de suporte por telefone e uma campanha nas redes sociais que incentivava usuários a publicar seu $cashtag, o identificador único do Cash App. Pelo acordo, a Block terá de manter atendimento ao cliente, oferecer suporte humano por telefone, descontinuar práticas de marketing que aumentam fraude e cumprir a obrigação de investigar reclamações e ressarcir usuários.
O laço com a CFPB e o vazio regulatório
O acordo estadual também amarra uma dívida antiga. No início de 2025, a CFPB havia encerrado uma investigação sobre conduta semelhante do Cash App, com restituição a consumidores de US$ 75 milhões a US$ 120 milhões. Sob a gestão Trump, a CFPB cancelou vários acordos, incluindo casos em que a restituição ainda não tinha sido paga, e desistiu de uma ação contra JPMorgan Chase, Bank of America e Wells Fargo por deixar a fraude proliferar no Zelle, rival do Cash App.
O pacto multiestadual funciona como rede de segurança: se a Block não pagar a restituição prometida à CFPB, a obrigação passa a ser absorvida e cobrada pelos estados. “Cash App disse às pessoas que o dinheiro delas estava seguro, e milhões de habitantes de Oregon e americanos acreditaram, incluindo muita gente que não tinha outras opções”, disse Dan Rayfield, procurador-geral do Oregon, em tradução livre. “Quando as coisas deram errado, a Block os deixou sem ter a quem recorrer.” A tensão entre plataformas de pagamento e reguladores não é exclusiva dos EUA: no mesmo mês, o HSBC foi multado em A$ 35 milhões na Austrália por falhar contra golpes.
O que observar
O caso desenha um perímetro que interessa diretamente ao Brasil: onde termina a responsabilidade de um app de pagamento P2P que “parece banco” mas não oferece as mesmas garantias. A discussão não é sobre um produto específico, e sim sobre o padrão de proteção que carteiras digitais e iniciadores passam a ter de sustentar quando o usuário confia no rótulo de segurança. Vale acompanhar se as autoridades de defesa do consumidor vão tratar suporte humano, verificação de identidade no cadastro e ressarcimento como obrigações mínimas, e não como diferencial.
No ecossistema Pix, a pergunta que fica é como o desenho de responsabilidade compartilhada entre instituições e o mecanismo de devolução evoluem à medida que golpes por engenharia social crescem. É um tema que o mercado brasileiro já debate, como a Zetta apontou ao classificar a engenharia social como frente crítica no Pix. Se o padrão americano vira referência, o custo de compliance de manter canais de suporte e prova de identidade robustos deixa de ser opcional para quem opera transferências instantâneas.
Fontes: Finextra • Oregon DOJ • TechCrunch • Let’s Money • Let’s Money