Dois anos e três meses após assumir o comando do Bradesco, Marcelo Noronha afirma que a transformação do banco finalmente ganhou tração. Em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro, o executivo rebateu críticas ao último balanço e deixou claro que não pretende sacrificar investimentos em tecnologia para agradar a ansiedade de curto prazo do mercado. A modernização custa caro, pressiona despesas e segura o ROE, mas ele não vai pisar no freio.
Bradesco saiu da defensiva após crise de inadimplência
O cenário que Noronha encontrou em novembro de 2023 era desafiador. O banco saiu da pandemia pressionado por inadimplência em alta, avanço dos bancos digitais e uma estrutura interna pesada. Na tentativa de defender participação de mercado, afrouxou critérios de crédito e ampliou exposição às camadas de menor renda. A conta veio rápido quando o ciclo de juros virou.
Noronha se tornou o primeiro CEO fora da tradicional prata da casa, embora já fizesse parte dos quadros do banco havia duas décadas. Em fevereiro de 2024, lançou um plano de transformação de cinco anos com metas ambiciosas: modernizar tecnologia, reduzir custos estruturais e recuperar a qualidade da carteira.
Uma das metas centrais é reduzir o índice de eficiência para 40% até 2028. Hoje, ele está em 50%. Desde o início do plano, cerca de 2,8 mil agências foram fechadas ou remodeladas, parte da estratégia para enxugar a estrutura física e acelerar a digitalização. Conforme reportou o Seu Dinheiro, Noronha destacou que o banco tem plano, tração comercial e base de clientes.
A carteira de PMEs subiu de 19,1% para 23,9% da carteira total desde 2023. O banco também lançou o segmento Principal para atender à alta renda. A participação de mercado saiu de 14% para 14,6%, enquanto a carteira cresceu 24% no período.
ROE acima do custo de capital, mas mercado quer mais
A grande discussão com o mercado gira em torno do ROE. Há analistas que questionam se o Bradesco conseguirá romper novamente a barreira dos 17% e alcançar os 20% de rentabilidade. Noronha não ignora o debate, mas afirma que não aceita atalhos. Aumentar exposição a ativos mais arriscados turbinaria a margem no curto prazo, mas o risco de devolver o resultado seria alto demais.
No último balanço, o banco conseguiu entregar um degrau relevante: rentabilidade superior ao custo de capital. Isso significa que a companhia está gerando valor para os acionistas, com retorno sobre investimentos maior do que o custo para levantar e utilizar esse dinheiro. Para Noronha, a modernização é inegociável, mesmo que pressione resultados no curto prazo. A aposta é que a transformação digital e a qualidade da carteira pavimentem um crescimento mais sólido e sustentável nos próximos anos.