A Chilli Beans passou a capturar ela mesma as vendas com cartão de suas mais de mil lojas e quiosques. A taxa que ia para uma adquirente de mercado agora fica na franqueadora, que trata a maquininha como a primeira das três etapas de um braço financeiro próprio.
As três etapas do braço financeiro
Etapa
Situação
Adquirência com maquininha própria, feita com a Zoop
No ar
Conta digital em modelo white label
Etapa seguinte
Crédito ao franqueado com base nos dados de venda
Etapa final, sem data
Sequência descrita pela empresa em agosto de 2026. Fonte: Exame
Por que a franqueadora quer o extrato do franqueado
Quem opera a captura enxerga o caixa da loja em tempo real, sem depender do que o banco ou a credenciadora informam. A rede batizou o produto de ChilliPay e o construiu com a Zoop, fintech de infraestrutura que pertence ao iFood desde 2024. São 1.100 lojas, segundo a revista.
“Começamos pela adquirência, em parceria com a Zoop, com a nossa própria maquininha e maior poder de negociação para oferecer taxas mais competitivas”, disse Eduardo Felix, diretor de expansão da Chilli Beans. Do lado da franqueadora, a conta fecha por dois caminhos: a margem da taxa cobrada por transação e as tarifas de antecipação de recebíveis, que antes ficavam com terceiros.
O que sustenta a etapa final é o histórico de vendas. Sabendo quanto cada ponto vende e em quanto tempo o dinheiro entra, a marca consegue calibrar sozinha as linhas que pretende abrir para giro e para obras de loja, cobrando as parcelas dentro do mesmo fluxo de pagamento que já administra.
A lógica de trava aparecia no podcast Let’s Money de março de 2026, quando Gustavo Siuves, CRO da Azify, defendeu que a próxima geração de bancos nasce dentro de nichos, e não em instituições generalistas. “A empresa não vai querer mudar muito, inicialmente já está tudo embedado”, afirmou. Na época ele falava de verticais como contadores e médicos. O caso das franquias segue o mesmo desenho, com um detalhe extra: aqui a dona da marca também é a dona do contrato.
O que observar
A pergunta prática é o que acontece com o contrato de franquia. Se a captura de pagamento passa a ser condição da rede, o custo da maquininha deixa de ser negociado pelo lojista e vira cláusula, o que muda a régua de comparação: o franqueado precisa medir o custo efetivo por transação, e não a promessa de taxa mais baixa. Vale acompanhar se redes que adotam o modelo publicam essa taxa aos franqueados.
O ponto seguinte é a concentração. Quando a mesma parte processa a venda, guarda o dado e empresta com garantia no recebível, a inadimplência do lojista vira risco da franqueadora, e não do sistema bancário. Se o modelo escalar entre redes grandes, o teste será a primeira retração de consumo relevante: dá para sustentar crédito próprio quando o faturamento da rede inteira cai ao mesmo tempo?