Dois meses após ser anunciado como chefe de corporate e investment banking do Santander Brasil, Christian Egan deve assumir a presidência da B3, segundo fontes do conselho consultadas pelo Valor Econômico. A escolha surpreende o mercado, que apostava em Luiz Masagão, atual vice-presidente de produtos e clientes da bolsa, como o sucessor natural de Gilson Finkelsztain.
Sucessão na B3: os três candidatos
| Candidato |
Posição atual |
Desfecho |
| Luiz Masagão |
VP de produtos e clientes, B3 |
Favorito do mercado; dividiu conselho |
| Alexandre Bettamio |
Co-head global IB, Bank of America |
Convidado pelo conselho; declinou |
| Christian Egan |
Head de corporate & IB, Santander |
Deve ser anunciado presidente |
Apuração sobre o processo de sucessão da B3. Fonte: Valor Econômico
Finkelsztain sai, concorrência chega
Gilson Finkelsztain comanda a B3 desde 2017 e deve deixar o cargo para assumir a presidência do Santander Brasil. O processo de sucessão na bolsa começou em meados de julho de 2025, com a contratação da consultoria de recrutamento executivo Russell Reynolds.
O timing não é trivial: ao menos três novas bolsas se preparam para disputar fatias do mercado hoje dominado na prática pela B3, incluindo iniciativas que têm, entre seus sócios, executivos que passaram pela própria bolsa. A expansão da B3 para infra de crédito, com a compra de 62% da Shipay em agosto de 2025, sinaliza que a bolsa já vinha reposicionando seu modelo antes mesmo da troca de comando.
Um conselho dividido
Masagão era, para boa parte do mercado, o candidato óbvio: conhece a casa, lidera a relação com clientes e tocou operações críticas da bolsa. Mas fontes do conselho relataram ao Valor que parte do colegiado, incluindo o presidente Caio Ibrahim David, resistia à sua promoção. O próprio nome de Ibrahim David chegou a ser considerado, mas descartado por conflito de interesse e por avaliações sobre perfil técnico para o cargo.
Alexandre Bettamio, que retorna ao Brasil após 12 anos em Nova York para chefiar globalmente o investment banking do Bank of America, foi convidado pelo conselho e era o preferido de Ibrahim David. Bettamio declinou. Com a negativa, a ala resistente a Masagão viu em Egan uma saída: além do perfil de mercado de capitais, ele e Ibrahim David têm histórico conjunto no Itaú BBA, onde Egan acumulou 11 anos, os últimos quatro como chefe de mercados globais e tesouraria.
O que observar
A pergunta mais relevante não é quem presidirá a bolsa, mas com qual mandato. Presidentes escolhidos sob resistência interna no conselho enfrentam ponto de partida mais frágil para decisões que exijam velocidade. No médio prazo, a instituição precisará definir respostas concretas à entrada de novos competidores: precificação de serviços, relacionamento com corretoras e possível reposicionamento em segmentos onde rivais têm vantagem estrutural.
Vale acompanhar também a dinâmica entre o novo presidente e o conselho de administração. Se a escolha refletir alinhamento estratégico real entre os dois, a sinergia pode acelerar decisões. Se houver tentativa de afirmação de autonomia, o histórico de racha no processo seletivo pode criar fricção. O fato de a bolsa afirmar que o processo ainda não foi concluído deixa em aberto se o anúncio virá com ou sem surpresas adicionais.
Fontes: Valor Econômico • Bloomberg Línea • Let’s Money