Um relatório de inteligência financeira do Coaf apontou suspeita de irregularidades em R$ 39 milhões repassados pelo Exército ao Banco Master como descontos de consignado de militares entre agosto de 2024 e outubro de 2025. A liquidação do banco pelo Banco Central em novembro levou o Exército a rescindir o contrato unilateralmente.
Repasses do Exército ao Banco Master
| Ano |
Valor repassado |
| 2023 |
R$ 36,1 milhões |
| 2024 |
R$ 37,6 milhões |
| 2025 |
R$ 23,4 milhões |
Repasses anuais em consignado. Fonte: Valor Econômico
O que o relatório do Coaf aponta
O documento, obtido pela Folha e enviado em março à CPI do Crime Organizado no Senado, lista duas possíveis irregularidades por parte do banco. A primeira é o débito imediato dos valores pelo Master após o recebimento, o que pode indicar transações suspeitas e burla do destino do dinheiro. A segunda é a concentração dos recursos em uma mesma titularidade, movimentação que dificulta identificar outros beneficiários.
“Os valores envolvidos são oriundos de rendimentos particulares dos militares para o pagamento de dívidas privadas”, afirmou o Exército em nota, ao negar perda patrimonial para a Força ou para os cofres públicos. A CPI do Crime Organizado encerrou na semana passada sem aprovar um relatório final.
Do credenciamento em 2023 à rescisão em 2025
O Master foi credenciado pelo Comando do Exército em 9 de fevereiro de 2023, em contrato com validade inicial de um ano. Dois aditivos prorrogaram o acordo, o último em 15 de janeiro de 2025, estendendo os serviços de consignado até janeiro de 2027. Após a liquidação extrajudicial do banco em 18 de novembro de 2025, o Exército rescindiu o credenciamento de forma unilateral em 24 de novembro.
A Aeronáutica também credenciou o Master, em contrato com vigência entre 2024 e 2029, e informou que houve repasses em 2024 e 2025 sem divulgar os valores. A Força trabalha com 234 entidades credenciadas e disse que suspendeu novas transferências “após a decretação da liquidação extrajudicial e diante da ausência de ratificação dos dados de domicílio bancário da entidade liquidante”.
O banco de Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal e em fase de delação, também usou a revenda de carteiras de consignado como fonte de receita: faturou R$ 1,6 bilhão em 2024 com a operação, segundo relatório do administrador judicial.
O que observar
O caso expõe um ponto cego dos credenciamentos públicos: órgãos que operam folha de militares e servidores habilitam consignatárias com base em requisitos jurídico-fiscais, mas o risco de contraparte da instituição financeira fica fora do edital. Vale acompanhar se entidades credenciadoras e reguladores vão incorporar rating de crédito e monitoramento contínuo de liquidez como critério de permanência, não apenas de habilitação inicial.
A outra frente é o uso do relatório de inteligência financeira pelas investigações em andamento. Se a linha de débito imediato virar eixo central da apuração, o precedente pode redesenhar o protocolo de conciliação entre entidades consignantes e consignatárias nos próximos meses, com pressão adicional por camadas de reporting automático ao regulador.
Fontes: Valor Econômico • InfoMoney