A gerente da Superintendência de Supervisão de Securitização da CVM, Cynthia Braga, afirmou que o Banco Master operava um esquema circular em fundos com patrimônio superavaliado, onde a instituição atuava simultaneamente como gestora e investidora. A declaração foi feita durante o Congresso de Fundos de Investimento, em homenagem aos 50 anos da autarquia, na sede da OAB no Rio.
Esquema circular do Master em fundos
| Elemento |
Detalhe |
| Mecanismo |
Master atuava como gestor e investidor dos mesmos fundos |
| Perfil dos fundos |
Exclusivos, sem varejo nem múltiplos investidores |
| Auditorias |
Relatórios formalmente corretos, sem ressalvas |
| Detecção CVM |
Processos abertos antes da liquidação pelo BC |
Fonte: Valor Econômico
O que a CVM encontrou nos fundos do Master
“Era o Master com o Master, praticamente. Não eram fundos para varejo nem para diversos investidores na grande maioria”, disse Braga no evento. A gerente explicou que a área técnica da SSE identificou sinais de atuação potencialmente fraudulenta antes mesmo da liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. “A gente tenta ter essa atuação preventiva, mas não tem como pegar tudo e evitar que aconteça”, completou.
A revelação expõe uma falha que já havia sido sinalizada: em fevereiro, o presidente interino da CVM, João Accioly, descreveu o caso como um “alinhamento perverso” entre gestores e investidores, onde o banco era “promotor ativo” da superavaliação de ativos em fundos exclusivos. Em março, a autarquia trocou o comando de quatro superintendências após investigações internas sobre a condução do caso.
A falha das auditorias
Braga afirmou que, apesar da fraude, os relatórios de auditoria dos fundos do Master estavam formalmente dentro das normas. “Por incrível que pareça, a grande maioria dos relatórios de auditoria estavam lá bonitinhos, como se não tivesse nenhum problema”, disse Braga. A CVM estuda aprimorar o fluxo de relatórios que preveem abstenções da auditoria, indicando que o modelo atual de supervisão baseada em documentos formais tem limitações quando o próprio emissor controla ambos os lados da operação.
O caso Master é considerado o maior colapso bancário brasileiro em mais de 30 anos, com perdas estimadas em R$ 50 bilhões e R$ 1,87 bilhão de fundos previdenciários municipais e estaduais presos na liquidação. Até agora, a CVM tem ao menos 200 processos em análise relacionados ao banco de Daniel Vorcaro, preso após a Operação Compliance Zero da Polícia Federal.
O que observar
A admissão pública de que auditorias formalmente corretas coexistiram com fraude ativa levanta uma questão estrutural para o mercado de fundos exclusivos: se os mecanismos de controle dependem de documentos produzidos pelo próprio fraudador, a supervisão baseada em risco precisa de gatilhos que vão além da conformidade documental. A CVM já sinalizou que estuda mudanças nos fluxos de abstenção, mas o teste real será se essas novas regras conseguem capturar esquemas circulares em que gestor e investidor são a mesma parte.
A menção à necessidade de interlocução com o Banco Central também sugere que a fragmentação regulatória entre saúde bancária (BC) e fiscalização de ativos (CVM) segue como ponto cego do sistema. Para fundos previdenciários e gestores independentes, a velocidade com que essas lacunas forem endereçadas define o risco de exposição a estruturas semelhantes que possam existir em outros segmentos do mercado.
Fontes: Valor Econômico • Agência Brasil • Senado Notícias • Let’s Money