O líder da direita inglesa, Nigel Farage, pressionou o Bank of England, em reunião privada, para abandonar a criação da moeda digital do país. A revelação do Guardian acende um debate que tem paralelo direto no Brasil, onde o Drex segue em fase de testes.
Pressão pública e privada contra o digital pound
| Quando |
O que aconteceu |
| Setembro de 2025 |
Reunião privada com o governor do Bank of England para pedir o fim do projeto de moeda digital |
| Outubro de 2025 |
Declaração pública classificando o projeto como horror absoluto, com disposição manifestada de ir preso para impedi-lo |
Cronologia da pressão contra o digital pound. Fontes: Finextra • FStech
Reunião privada acende debate global de moeda digital
O encontro com o governor Andrew Bailey foi usado por Farage para defender duas posições: o abandono do projeto de moeda digital do banco central e a derrubada de um teto proposto para depósitos individuais em stablecoin no Reino Unido. Em outubro de 2025, em evento público, o líder do Reform UK classificou o projeto como horror absoluto e disse estar disposto a ir preso para impedi-lo, alegando que a moeda digital seria administrada sob “identidade digital”.
O movimento britânico chega no momento em que o tabuleiro global de moedas digitais ganha contornos novos. Hong Kong colocou sua CBDC no ar para liquidar derivativos em junho. A Geórgia contratou a Tether para criar uma stablecoin nacional em maio. O debate entre CBDC, stablecoin e infraestrutura privada deixou os fóruns técnicos e chegou à arena política.
A doação de £25 milhões que entra no centro do debate
O Guardian aponta uma sobreposição que o Reform e o doador rejeitam. Christopher Harborne, bilionário citado como dono de cerca de 12% da Tether, doou em torno de £25 milhões ao Reform UK e fez um aporte pessoal de £5 milhões a Farage. Lucros estimados em torno de £1 bilhão por ano dependem da continuidade do uso de stablecoins privadas em escala, equação que muda se o Bank of England avançar com uma moeda digital própria.
Anna Turley, presidente trabalhista, informou que pedirá investigação ao regulador financeiro do Reino Unido. “Isso é absurdo total. O único foco do Nigel é salvar o país”, disse o porta-voz do Reform ao Guardian, em tradução livre. Advogados de Harborne afirmaram que o bilionário não comentará a reportagem.
Por que o caso ecoa no debate do Drex
O Brasil está em fase de testes de sua própria moeda digital. Em fevereiro de 2026, o TCU apontou falha no blockchain do Drex e o Banco Central remodelou o desenho do projeto. Não há por aqui ator político-partidário com posição pública contra a iniciativa, mas o ecossistema brasileiro de cripto e stablecoin acompanha cada movimento. A série histórica do Let’s Money sobre o tema registra cobertura contínua dos testes do Drex e do avanço regulatório das stablecoins desde 2023. A frente aberta no Reino Unido instala um precedente, com lobby contra CBDC ganhando endereço político-partidário formal e ataque pelas duas frentes ao mesmo tempo, contra a moeda do BC e a favor de regras frouxas para stablecoin.
O que observar
O caso britânico abre três frentes para acompanhar nos próximos meses. A primeira é regulatória, com a pergunta de como reguladores em outras jurisdições, incluindo o Brasil, reagem ao precedente de pressão político-partidária formal contra projetos de moeda digital de banco central. A segunda é institucional, com a discussão de como bancos centrais blindam o processo decisório de moeda digital de operações de lobby do mercado privado de stablecoin, sobretudo quando há sobreposição financeira clara entre doadores e setores afetados.
A terceira frente é estrutural. O sucesso ou recuo de projetos como o digital pound pode redesenhar o cálculo de risco-retorno do setor privado de stablecoin em escala global, com efeito direto sobre as escolhas de infraestrutura de pagamento que o ecossistema fintech brasileiro vai fazer nos próximos anos.
Fontes: Finextra • FStech • Irish News