O novo Desenrola para adimplentes vai focar no crédito direto ao consumidor sem garantia, especialmente de trabalhadores informais com juros muito altos, informou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, em entrevista exclusiva ao Valor. O programa, previsto para junho, usará o Fundo Garantidor de Operações para reduzir os juros e não vai permitir saque do FGTS.
Desenrola em duas versões
| Característica |
Inadimplentes |
Adimplentes |
| Dívida alvo |
Atrasadas |
Em dia (CDC sem garantia, Fies) |
| Saque FGTS |
Permitido |
Não |
| Garantia |
FGO |
FGO com redução de juros |
| Público |
Renda até 5 salários-mínimos |
Mais segmentado |
| Lançamento |
Maio 2026 |
Junho 2026 (previsto) |
Comparativo com base em declarações do ministro Durigan. Fonte: Valor Econômico
O informal que paga caro é o alvo
“O informal que toma um CDC, por exemplo, com juros muito altos, é quem mais tem dificuldade e risco de cair no crédito. Então, se a gente de alguma maneira conseguir conduzir esse informal em uma operação de crédito com juros um pouco mais controlados e garanta que ele siga adimplente, isso pra mim é fundamental”, disse Durigan. Dívidas em dia do Fies também poderão entrar no programa, segundo o ministro.
O patamar de juros dos contratos elegíveis ainda está sendo definido pela pasta. O governo estuda também premiar os adimplentes com acesso a empréstimos habitacionais em melhores condições. “Temos estudado isso como um estímulo a quem está adimplente”, disse Durigan, sem detalhar a medida. O custo elevado do crédito para trabalhadores de baixa renda é um problema que ferramentas como o Open Finance ainda não conseguiram resolver completamente, com apenas 37% dos brasileiros utilizando o mecanismo, segundo pesquisa recente.
Bancos resistem, FGO é o argumento da Fazenda
O setor bancário, que já pressiona o governo em outras frentes de crédito, também tem resistido ao programa: bancos não querem repactuar empréstimos que estão sendo honrados, com receio de inadimplência artificial e de aumento do custo do crédito. Durigan respondeu com o FGO. “Pode ser com redução de juros e, se for com redução de juros, pode ter apoio também do FGO, o que diminui o risco do banco, inclusive no longo prazo, fazendo com que o banco não tenha problema de inadimplemento”, disse o ministro.
Para financiar o programa, a Fazenda conta com os R$ 2 bilhões já existentes no fundo mais os R$ 5,7 bilhões em recursos esquecidos nos bancos. A União não tem espaço fiscal para o aporte de até R$ 5 bilhões no FGO já autorizado por medida provisória. A versão para inadimplentes, lançada em 4 de maio, já está próxima de R$ 1 bilhão em dívidas renegociadas, com 45% a 50% das operações pagas à vista. “Se a gente não cuidar disso, as pessoas vão cair no inadimplemento”, afirmou Durigan ao justificar a urgência da versão para adimplentes.
O que observar
O teste real da versão para adimplentes está na adesão dos bancos. Ao contrário do Desenrola para inadimplentes, que opera sobre dívidas atrasadas com desconto, aqui a lógica exige que instituições aceitem voluntariamente reduzir juros de contratos que estão rendendo. O argumento do FGO reduz risco futuro de inadimplência, mas não elimina a perda de receita imediata na renegociação. O critério de eligibilidade por taxa de juros será determinante: quanto mais alto o patamar de entrada, mais estreito o público beneficiado.
Vale acompanhar se o programa de fato alcança o trabalhador informal que paga os juros mais elevados do sistema, dado que o público-alvo é declaradamente mais restrito que a versão para inadimplentes. O incentivo habitacional anunciado como “estímulo a adimplentes” ainda está sem formato definido e pode abrir espaço para participação de instituições de crédito imobiliário no programa.
Fontes: Valor Econômico • Agência Brasil • Let’s Money • Let’s Money