A Financial Conduct Authority publicou hoje o roadmap do Reino Unido para Open Finance, com foco em PMEs e hipotecas, e trabalhará com o Tesouro britânico para desenhar um marco regulatório até o fim de 2027. O movimento chega cinco anos depois da largada brasileira, ecossistema que já soma 154 milhões de consentimentos ativos e é hoje o maior do mundo.
Open Finance: Brasil vs. Reino Unido
| Dimensão |
Brasil |
Reino Unido |
| Início |
Fev/2021 |
Roadmap publicado em 2026 |
| Escopo atual |
Dados, pagamentos, crédito (fase 4) |
Casos de uso em desenho |
| Clientes conectados |
Mais de 100 milhões |
n/d |
| Consentimentos ativos |
154 milhões |
n/d |
| Prioridades declaradas |
Portabilidade de crédito, adesão de PJs |
PMEs e hipotecas |
| Marco regulatório |
Já vigente |
Até o fim de 2027 |
O Brasil está cinco anos à frente do Reino Unido em cobertura e escala. Fonte: FFnews e dados da Associação Open Finance Brasil
O que o FCA colocou na mesa
A proposta do regulador britânico é dar a consumidores e empresas maior controle sobre os próprios dados financeiros para que possam acessar hipotecas, investimentos, poupança e previdência em melhores condições. A FCA priorizará explorar como o Open Finance pode ajudar PMEs a conseguir crédito mais rápido e consumidores a gerenciar hipotecas, com execução via o Smart Data Accelerator e a PRISM Taskforce, mecanismos internos de priorização da autoridade.
“O Open Finance tem o potencial de transformar como as pessoas interagem com serviços financeiros. Ao dar a consumidores e empresas mais controle sobre os próprios dados financeiros, podemos ajudá-los a acessar crédito, fechar melhores negócios e receber suporte mais customizado”, afirmou David Geale, diretor executivo de pagamentos e finanças digitais da FCA. Adam Jackson, chief strategy officer da Innovate Finance, foi um passo além e ligou o Open Finance à próxima onda de IA: “o Open Finance pode ser a fundação para a adoção ampla de IA agêntica”. O marco regulatório completo será trabalhado em conjunto com o HM Treasury e deve ficar pronto até o fim de 2027. A iniciativa complementa o plano de smart data britânico, avaliado em £ 371 bilhões até 2043, e o debate sobre o futuro do Open Banking no Reino Unido.
O Brasil está cinco anos na frente
Enquanto o Reino Unido apenas publica o roadmap, o Brasil está em operação desde fevereiro de 2021 e hoje opera a maior estrutura de Open Finance do mundo. Em entrevista ao podcast Let’s Money em 2025, Ana Carla Abrão, CEO da Associação Open Finance Brasil, detalhou o tamanho do ecossistema. “A gente tem que pensar que hoje a gente tem os números: 70 milhões de contas conectadas. São mais de 100 milhões de conexões, sendo esse o maior Open Finance do mundo”, afirmou na ocasião. A base seguiu crescendo e, segundo o BC, o número de consentimentos ativos chegou a 154 milhões.

A agenda brasileira para 2026 já se concentra nas etapas seguintes, que o FCA só começa agora a explorar. O BC prepara o lançamento da portabilidade de crédito nativa via Open Finance, evolução que permite ao cliente migrar operações de crédito entre bancos usando o compartilhamento de dados. O governo federal também estuda ampliar o Open Finance para seguros e previdência, o que alargaria o perímetro do ecossistema para além das verticais já cobertas.
O ponto fraco, reconhecido pelo próprio mercado, é a adesão de empresas. Menos de 10% dos consentimentos hoje vêm de CNPJs e a adesão corporativa segue como entrave. Curiosamente, é exatamente esse o mesmo ponto que a FCA escolheu priorizar na largada britânica: PMEs e crédito empresarial.
O que observar
A aposta na IA agêntica como próximo estágio do Open Finance é a camada mais interessante do movimento britânico. Dados financeiros consolidados entre contas, hipotecas, investimentos e previdência criam exatamente o tipo de base estruturada que agentes autônomos precisam para fazer recomendações e executar ações. Vale acompanhar se reguladores de mercados maduros como o brasileiro vão sair na frente com frameworks para agentes autônomos operando sobre dados compartilhados, ou se esperarão a trilha britânica amadurecer para só então se posicionar.
A pergunta que fica é sobre posicionamento competitivo. O Brasil construiu a maior arquitetura global mas ainda luta para convencer empresas a entrarem. O Reino Unido começa com foco claro em PMEs e hipotecas, áreas em que o BR já identificou gargalos. Se o roadmap britânico resolver a jornada corporativa de forma mais fluida desde a largada, o ecossistema tende a virar referência internacional em adesão PJ, mesmo sem ter o volume absoluto do lado brasileiro. O teste real será como cada jurisdição traduz escopo em valor capturado pelo usuário final.
Fontes: FFnews • Let’s Money Podcast: 5 anos do Open Finance, com Ana Carla Abrão