A Félix, fintech de Miami que faz remessas por WhatsApp para imigrantes latinos nos EUA, fechou uma Série C de US$ 200 milhões. São US$ 87 milhões em equity, com a Andreessen Horowitz na liderança, e US$ 113 milhões em uma linha de crédito da General Catalyst.
Série C da Félix: equity e dívida separados
| Parcela |
Valor |
| Equity, liderado pela Andreessen Horowitz |
US$ 87 milhões |
| Linha de crédito do Customer Value Fund, da General Catalyst |
US$ 113 milhões |
| Total da Série C |
US$ 200 milhões |
| Captado desde a fundação, em 2020 |
Cerca de US$ 300 milhões |
Composição da rodada anunciada em 1º de setembro de 2026. Fonte: Crunchbase News
O que sustenta as remessas por WhatsApp da Félix
Fundada em 2020 por Manuel Godoy e Bernardo García, a empresa opera a partir dos Estados Unidos e envia dinheiro para onze mercados latino-americanos, o Brasil entre eles. O usuário diz por escrito ou por áudio quanto quer mandar e para quem, e só no passo final informa os dados do cartão de débito, por um link seguro. Por trás da conversa, a liquidação passa pelo USDC, a stablecoin de dólar da Circle.
Os números de tração são da própria companhia. A Félix afirma ter processado mais de US$ 8 bilhões em transações desde que nasceu, para mais de 6 milhões de pessoas, e diz que a receita cresceu mais de 2,5 vezes no último ano. O trilho de stablecoin, porém, não é exclusividade da empresa: o Let’s Money mostrou que a Volt lançou pagamento em USDC nas remessas da Profee e que a Western Union anunciou a própria stablecoin, a USDPT. No corredor entre Estados Unidos e Brasil, a belo integrou o Cash App e abriu um corredor de remessas.
Do envio de dinheiro para crédito e poupança
Com o caixa reforçado, a Félix diz que quer virar uma empresa financeira multiproduto montada em torno do robô de inteligência artificial que a companhia chama de Cognitive Financial Companion. Crédito e poupança aparecem como possibilidade, oferecidos por terceiros, ao lado da ampliação do que já roda: remessas e recarga de celular. Segundo a Refresh Miami, o capital vai para contratações, inteligência artificial, engenharia, infraestrutura financeira e entrada em mais mercados latino-americanos.
“Quando cheguei aos Estados Unidos, conseguir até um empréstimo pequeno era mais difícil do que deveria ser”, disse Manuel Godoy, cofundador e CEO da Félix. “As instituições financeiras tradicionais costumam começar pelo produto que querem que você use. Nós queremos começar pela pessoa.”
A empresa não revelou o valuation da Série C. Afirmou apenas que ele aumentou três vezes desde a Série B, uma rodada de US$ 75 milhões liderada pela QED Investors em 2025. Ali Yahya, general partner da a16z crypto, afirmou que a Félix “empacotou duas tecnologias de fronteira, IA e redes blockchain, em algo simples e amigável para o consumidor: uma forma melhor de enviar e receber dinheiro”.
O custo de um envio internacional não se resume à tarifa. No podcast Let’s Money, em fevereiro de 2026, Gustavo Siuves, CRO (diretor de receita) da Azify, disse que uma transferência internacional tradicional leva de quatro a seis dias e que o importador paga por cada dia de carga parada no porto.
O que observar
A pergunta que fica é se um canal de remessa aguenta virar relacionamento financeiro. Enviar dinheiro é transação episódica, com receita por operação; crédito e poupança exigem funding, gestão de risco e licença em cada país de destino. Vale acompanhar se as fintechs nascidas no envio internacional vão originar crédito no próprio balanço ou apenas distribuir produto de terceiros: as duas rotas cobram capital e licença em graus muito diferentes.
Do lado da infraestrutura, o teste é de custo. Se a liquidação em stablecoin seguir barateando o corredor, a pressão recai sobre os operadores tradicionais de transferência internacional e sobre os bancos correspondentes que hoje ficam no meio do caminho. Vale observar também como os reguladores dos países de destino vão tratar a oferta de crédito dentro de um aplicativo de mensagem, canal que não nasceu para carregar contrato financeiro.
Fontes: Finextra • Crunchbase News • Refresh Miami • Félix • Let’s Money Podcast