O crédito que falta ao comércio internacional ficou em US$ 2,5 trilhões em 2025, o mesmo patamar de 2023, e 41% dos pedidos de financiamento ao comércio feitos por pequenas e médias empresas (PMEs) terminam recusados, segundo a pesquisa global do Banco Asiático de Desenvolvimento divulgada em janeiro de 2026. Comfi, Hokodo e Treyd apostam que a inteligência artificial derruba o custo de analisar essas operações a ponto de tornar o empréstimo pequeno lucrativo de novo.
Por que o crédito a PMEs exportadoras não fecha a conta
A engrenagem é velha. Um fornecedor pequeno embarca a mercadoria e espera de 30 a 90 dias até receber, enquanto precisa de caixa para seguir operando. Do outro lado do balcão, o custo de checar a papelada e a capacidade de pagamento do tomador pode superar o lucro de uma operação pequena, e o banco recua. A sobra vira uma lacuna equivalente a cerca de 10% do comércio mundial, ante 10,6% na medição anterior.
O levantamento está na nona edição e reuniu dados coletados entre 2023 e 2025 junto a mais de 110 provedores de financiamento ao comércio, até um terço do mercado global. Pela primeira vez, a taxa de recusa das PMEs nesse tipo de crédito (41%) chegou perto da registrada por grandes corporações e empresas de média capitalização (40%), embora o próprio banco de desenvolvimento anote que o dado ainda exige mais pesquisa.
“Sem financiamento suficiente ao comércio, a economia global corre o risco de perder oportunidades de crescimento. Precisamos redobrar nossos esforços para fechar a lacuna de financiamento ao comércio”, afirmou Isabel Chatterton, diretora-geral de Operações do Setor Privado do banco.
A conta do financiamento ao comércio em 2025
Indicador
Medida
Lacuna global de financiamento ao comércio
US$ 2,5 trilhões, igual a 2023
Peso sobre o comércio mundial
Cerca de 10%, ante 10,6%
Recusa de pedidos de PMEs em financiamento ao comércio
41%
Recusa de grandes corporações e empresas de média capitalização
40%
Bancos que usam IA em fraude e risco
84%
Bancos que estudam IA para ampliar financiamento
57%
Dados da nona edição da pesquisa global sobre a lacuna de financiamento ao comércio, divulgada em janeiro de 2026. Fonte: Banco Asiático de Desenvolvimento
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O que as fintechs leem no lugar da papelada
A Comfi, com sede nos Emirados Árabes Unidos, anunciou em 27 de abril de 2026 uma captação de US$ 65 milhões em rodada pré-série A que combina capital e dívida, com a parte de capital liderada pela Iliad Partners. O produto paga o fornecedor em até 24 horas e deixa o cliente dele pagar em até 90 dias. Fundada em 2023, a empresa diz ter processado mais de 15 mil faturas e atender mais de 1.000 clientes.
“Ao combinar análise de crédito guiada por inteligência artificial com gestão de risco disciplinada, o time construiu uma plataforma escalável desenhada para impacto na economia real”, disse Christos Mastoras, fundador e sócio-gerente da Iliad Partners.
A Hokodo, sediada em Londres, oferece prazos de 30, 60 e 90 dias a compradores empresariais. A Treyd, de Estocolmo, paga adiantado o fornecedor estrangeiro de marcas de varejo e define o limite conectando-se ao sistema contábil do cliente. As três substituem a conferência manual de documento pela leitura de fatura, histórico de pagamento e dado de transação.
A leitura automática já entrou no banco tradicional por outra porta: 84% dos bancos ouvidos na pesquisa dizem usar inteligência artificial em prevenção a fraude e análise de risco, e 57% estudam como ampliar com ela a capacidade de financiamento.
Baratear o processamento é a metade fácil da aposta, e é a que essas plataformas dizem ter resolvido. A parte cara continua aberta. Vale acompanhar se as carteiras montadas por plataformas de capital de giro separam bom e mau pagador melhor do que a análise tradicional, ou se apenas aceleram o crédito para quem os bancos recusavam por bom motivo. O teste chega no primeiro ciclo de aperto: aí dá para comparar a inadimplência dessas carteiras com a dos provedores tradicionais e ver se o custo menor de originação sobrevive ao custo maior de risco.