O Fundo Monetário Internacional elogiou o Pix como “catalisador de inclusão e concorrência”, mas apontou os ciberataques e as fraudes digitais como os principais riscos ao sistema. Em relatório divulgado nesta quinta-feira (23), o FMI também defendeu conceder plena autonomia orçamentária ao Banco Central e formalizar a supervisão do arranjo de pagamentos instantâneos.
O que o FMI viu no Brasil
| Eixo |
Avaliação do FMI |
| Pix |
Catalisador de inclusão e concorrência, de baixo custo |
| Concorrência |
Bancos digitais reduziram concentração e ajudaram a baixar juros |
| Concentração |
5 maiores bancos detêm 60% dos ativos (2 são estatais) |
| Risco principal |
Ciberataques e fraudes digitais |
| Recomendações |
Segregar supervisão do Pix e dar autonomia orçamentária ao BC |
Avaliação do FMI sobre o sistema financeiro brasileiro, julho de 2026. Fonte: Valor Econômico
Elogio ao Pix, ressalva na segurança
Para o Fundo, o Pix acelerou a transformação digital e ajudou a redesenhar o mercado bancário brasileiro. “Os bancos digitais emergentes reduziram a concentração do setor bancário e continuam a fomentar a concorrência e a eficiência, resultando também em taxas de crédito mais baixas“, diz o relatório. Ainda assim, os cinco maiores bancos, incluindo duas instituições estatais, seguem com 60% dos ativos bancários.
A contrapartida do sucesso é a exposição. O FMI enfatiza que a crescente importância do Pix pode exigir “reforço adicional da resiliência operacional” diante dos ciberataques e fraudes, além de avaliar mecanismos de liquidez suplementares para cenários de estresse. A recomendação mais concreta é institucional: “As funções de supervisão e as funções operacionais do Pix devem ser segregadas”, afirmou o documento, que pede formalizar e divulgar a política de supervisão do sistema. O Fundo também reforça a adoção de um arcabouço completo de resolução bancária, alerta que já vinha fazendo ao Brasil.
Autonomia do BC e o pano de fundo externo
O relatório considera urgente sanar a limitação de pessoal nos órgãos de supervisão e conceder ao Banco Central plena autonomia orçamentária, hoje objeto de uma Proposta de Emenda à Constituição em tramitação no Congresso. Em nota, o BC afirmou que recebe as análises “com satisfação” e que o fortalecimento institucional assegura condições para financiar suas atividades e recompor o quadro de servidores.
A publicação chega em meio a uma disputa comercial. Na semana passada, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos aplicou tarifas de 25% sobre exportações brasileiras, alegando, entre os motivos, que o Pix recebe tratamento preferencial e descrevendo o sistema como um “campeão nacional” em prejuízo de empresas de pagamento americanas. O tema já mobilizou Brasília, com o Itamaraty saindo em defesa do Pix, enquanto o Tesouro dos EUA sonda uma integração com o sistema.
O que observar
O ponto de atenção migra do desenho para a operação. Se o Pix virou infraestrutura crítica, a recomendação de segregar supervisão e operação deixa de ser detalhe técnico e vira teste de governança: quem fiscaliza não pode ser quem opera. Vale acompanhar se as instituições participantes e os prestadores de serviços essenciais serão formalmente incluídos no perímetro de supervisão, como sugere o relatório, e em que prazo a política será publicada.
O segundo fio a puxar é a capacidade do supervisor. A menção à falta de pessoal e à autonomia orçamentária conecta um problema institucional a um risco concreto: fiscalizar resiliência cibernética e fraude exige quadro técnico e orçamento estáveis. Se a fragilidade de financiamento persistir enquanto o universo supervisionado cresce, o gargalo deixa de ser regulatório e passa a ser de execução, com impacto direto sobre a velocidade de resposta a incidentes.
Fontes: Valor Econômico • Let’s Money • Let’s Money • Let’s Money