Questionado sobre a ofensiva americana contra o Pix, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, chamou o sistema de patrimônio da sociedade brasileira. No mesmo discurso, alertou que novas infraestruturas de pagamento internacional podem ameaçar a estrutura de fiscalização construída ao longo de décadas.
O discurso de Galípolo em três frentes
| Frente |
O que o presidente do BC disse |
| Defesa do Pix |
Classificou o sistema como “case de sucesso fantástico” e “patrimônio da sociedade brasileira” |
| Interligação internacional |
Disse procurar instituições e outros bancos centrais para conectar sistemas de pagamentos |
| Alerta regulatório |
Afirmou que infraestruturas paralelas ameaçam a estrutura de fiscalização criada em décadas |
Declarações na 27ª Conferência Anual do Banco Santander, em 17 de agosto de 2026. Fonte: UOL
Galípolo defende o Pix após o sistema virar alvo dos EUA
O Pix foi citado pelos Estados Unidos como prática de “concorrência desleal” e a avaliação foi uma das motivações para a imposição de uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras. Segundo o presidente americano, Donald Trump, o sistema do Banco Central prejudica as empresas de pagamento dos Estados Unidos. A resposta pública do regulador brasileiro vem se repetindo desde junho de 2026, quando Galípolo disse que o Pix terá de ser aceito e incorporado com o tempo.
Na 27ª Conferência Anual do Banco Santander, em São Paulo, ele voltou ao tema pelo ângulo da adesão popular e do interesse externo. “São poucos os casos em que a gente pode contar que países avançadíssimos falam: ‘esse é um tema que eu quero aprender com vocês'”, afirmou. 142 milhões de brasileiros iniciaram ao menos uma transação via Pix em abril de 2026, escala que ampara o argumento da adesão social ao sistema. “O Pix virou um patrimônio da sociedade brasileira”, disse Galípolo.
A aposta na interligação com sistemas de outros países
Para o presidente da autoridade monetária, é preciso ampliar a estrutura que sustenta o sistema para “acompanhar todas as inovações”. Ele reforçou a procura por instituições e outros bancos centrais para a interligação entre os sistemas de pagamentos dos países. A frente já aparece no Relatório de Gestão do Pix divulgado na semana passada, quando o BC informou que estuda conectar o Pix a sistemas de outras jurisdições, por acordos bilaterais ou pela participação em hubs multilaterais.
Segundo o documento, a interligação “tem o potencial de diminuir as tarifas, aumentar a velocidade, ampliar o acesso e melhorar a transparência de transações transfronteiriças”. O contraponto veio no mesmo discurso: as novas rotas de pagamento internacional exigem cautela. “Talvez estejam surgindo infraestruturas paralelas que oferecem uma ameaça a toda a estrutura regulatória de fiscalização e supervisão que foi criada ao longo de décadas”, alertou Galípolo. Ele não citou quais arranjos tinha em mente. O debate sobre novos trilhos internacionais corre em outras autoridades: em junho de 2026, o BIS alertou que as stablecoins ameaçam a estabilidade global.
O ponto prático que ele levantou é o padrão de checagem de identidade dessas rotas. “A vantagem [das ferramentas] não pode ter um KYC [processo de verificação de identidade] não tão rigoroso”, afirmou. Na sequência, defendeu que os bancos centrais usem as próprias inovações tecnológicas para reforçar cibersegurança, supervisão e fiscalização.
O que observar
O discurso coloca duas agendas no mesmo palco. De um lado, a disputa comercial em que um sistema público de pagamentos virou item de negociação tarifária, o que expõe bandeiras internacionais de cartão e provedores de remessa a um debate que deixou de ser técnico. De outro, a tentativa de levar o modelo brasileiro para fora por acordos entre bancos centrais, caminho que depende menos de tecnologia e mais de convergência regulatória entre jurisdições.
Vale acompanhar sob quais exigências de verificação de identidade essas conversas bilaterais avançam. Se a régua de compliance das rotas interligadas ficar acima da praticada por emissores de stablecoin e por plataformas de transferência internacional, a pergunta vira de custo: quem absorve a diferença entre a rota supervisionada e a paralela mais barata.
Fontes: UOL • BPMoney • Agência Brasil