A automação total de contas a receber ainda é minoria: 83% das empresas ainda não automatizaram totalmente as contas a receber, segundo a PYMNTS Intelligence. Ao mesmo tempo, a Zenskar acaba de captar US$ 15 milhões em Série A para expandir agentes de IA que executam cobrança, conciliação e negociação dentro do ciclo que vai do pedido ao recebimento. A pergunta que chega aos CFOs é se contratos e faturas estão prontos para serem executados por máquinas.
Onde o B2B ainda é manual
| Indicador |
Dado |
| Empresas que ainda não automatizaram totalmente contas a receber |
83% |
| ERPs em média por empresa |
3 sistemas |
| Rodada da Zenskar para IA agêntica |
US$ 15 milhões |
Indicadores de B2B agêntico. Fonte: PYMNTS
Por que contratos e faturas viram código de execução
A lógica do salto agêntico é direta: agentes autônomos precisam de dado estruturado para tomar decisões, e a maior parte dos contratos e faturas B2B foi desenhada para humanos, com ambiguidade útil em negociação e tóxica para execução automática. Cláusula de preço, cronograma de pagamento, SLA e gatilho de rescisão precisam virar campos legíveis por máquina, com vínculo direto ao contrato-mãe, integração à área de compras e ao pagamento, e conciliação no ponto de emissão.
A captação da Zenskar, liderada por Susquehanna Venture Capital, Bessemer Venture Partners, Shine Capital e Rho, fica nessa virada. “Finance teams aren’t struggling because they lack AI tools. They’re struggling because the systems underneath those tools were built for a simpler world” (times de finanças não sofrem por falta de ferramentas de IA, e sim porque os sistemas por baixo delas foram construídos para um mundo mais simples), disse Apurv Bansal, cofundador e CEO da Zenskar, ao anunciar a rodada. Segundo Lee An Schommer, CPO da Billtrust, em entrevista à PYMNTS, as empresas rodam em média três sistemas de ERP diferentes, o que gera silos de dados e dificulta uma visão unificada de comportamento do cliente, histórico de pagamento e padrões de disputa.
No Brasil, ERP fragmentado e agentes já no radar
Enquanto startups globais empilham capital para reescrever sistemas de faturamento do zero, o cenário brasileiro é de mosaico. A Totvs integrou crédito ao próprio ERP e prepara conta digital para PMEs, num movimento que consolida mais funções sob uma única plataforma. Em paralelo, big techs B2B empurraram a agenda agêntica para dentro das áreas de tesouraria: a Oracle levou IA agêntica a CFOs brasileiros em parceria com a fintech Quadra, e a Ralio captou US$ 2,5 milhões para construir trilhos de pagamento entre agentes de IA.
A trilha brasileira conta com uma vantagem estrutural: a nota fiscal eletrônica já é dado estruturado desde 2006, o que coloca o país relativamente à frente em faturas legíveis por máquina. O gargalo aqui está mais nos contratos, na multiplicação de ERPs por empresa e na fragmentação entre áreas de compras, jurídico e financeiro.
O que observar
Três pontos valem acompanhamento. Primeiro, a divisão entre plataformas nativas em IA e ERPs incumbentes que acoplam IA por cima. Plataformas novas partem de uma estrutura de dados já preparada e cortam ambiguidade de origem; incumbentes têm base instalada e dados históricos, mas precisam reescrever fluxo e contrato ao mesmo tempo. A primeira onda de ganhos agênticos tende a ir para quem reestruturou o modelo de dados, não para quem apenas colocou copiloto na frente da planilha.
Segundo, responsabilização e governança. Se um agente negocia um termo ou dispara um pagamento fora do parâmetro, quem responde? Regras internas de aprovação, registro de decisão e trilhas de auditoria ainda estão em construção. Vale acompanhar se reguladores e associações setoriais no Brasil começarão a publicar padrões mínimos de supervisão humana sobre agentes financeiros.
Terceiro, a padronização das estruturas de dados. Contratos legíveis por máquina exigem campos, taxonomias e referências comuns. Em faturas, o país já tem uma base consolidada via nota fiscal eletrônica, mas o mesmo nível de padrão ainda não existe em contratos comerciais. Indústrias de contrato denso como telecom, saúde e infraestrutura tendem a ser as primeiras a puxar o movimento, e empresas que não reestruturam sua base contratual correm risco de ficar do lado errado da curva quando agentes começam a executar mais rápido que o financeiro humano.
Fontes: PYMNTS • Businesswire: Zenskar Série A • Let’s Money: Oracle e IA agêntica em tesouraria • Let’s Money: Totvs integra crédito ao ERP • Let’s Money: Ralio e agentes de IA