O mercado de microcrédito brasileiro, historicamente dominado pelo Banco do Nordeste, voltou a crescer e atraiu concorrência. A digitalização acelerada na pandemia e uma flexibilização regulatória de 2021 — que criou a figura do agente autônomo de crédito — levaram Itaú, Santander e Caixa a ampliar suas operações. O Itaú saltou de cerca de 2% de participação em 2021 para 16,4% hoje, atendendo 350 mil microempreendedores.
Quem disputa o microcrédito brasileiro
| Banco / Programa |
Dado-chave |
Movimento |
| BNB — CrediAmigo |
R$ 13,4 bi desembolsados em 2025 |
Líder histórico |
| Santander — Prospera |
R$ 3,8 bi de carteira, 1,2 mi clientes |
Avalia agente autônomo |
| Itaú |
16,4% de market share, 350 mil clientes |
De 2% em 2021 para 16,4% |
| Caixa — Conquista + Caixa |
R$ 1,3 bi de carteira, tíquete de R$ 11 mil |
Mira R$ 3 bi em 2026 |
Fonte: Valor Econômico
Um mercado de R$ 9,2 bi em retomada
O microcrédito teve pico em setembro de 2022, quando atingiu R$ 12,4 bilhões, impulsionado pela demanda da pandemia. Recuou para R$ 7 bilhões em abril de 2024 e voltou a crescer desde então, chegando a R$ 9,2 bilhões, segundo dados apresentados pela reportagem do Valor. Pelas regras do PNMPO, os bancos devem aplicar 2% dos depósitos à vista em operações da modalidade, com teto de juros de 4% ao mês — uma combinação que, historicamente, afastou grande parte do setor e fez as cotas serem repassadas ou deixadas paradas no Banco Central.
Como o Itaú passou de 2% a 16,4%
A mudança que destravou a entrada de grandes bancos foi a criação do agente autônomo de crédito, em 2021. Antes dela, o modelo exigia uma estrutura pesada de correspondentes para fazer o atendimento in loco exigido pelo PNMPO. “Operamos no microcrédito há algum tempo, mas existia um desafio de necessidade de capilaridade muito grande. Com a mudança que criou o agente autônomo de crédito, vimos que dava para ter uma boa distribuição”, disse Alexandre Borin, diretor de crédito do Itaú, ao Valor. Borin atribui o salto de 2% para 16,4% de participação à combinação de agente autônomo, avanço dos modelos de crédito e digitalização do banco.
No Santander, o programa Prospera opera com 1,8 mil correspondentes e avalia adotar o modelo de agente autônomo. “É um tema complexo, mas em algum momento vamos ver de que forma podemos endereçar esse assunto”, disse Fernando da Hora, diretor sênior do programa. A Caixa relançou sua operação em 2024 sob o nome “Conquista + Caixa” e pretende triplicar o desembolso em 2026, de R$ 1 bilhão para R$ 3 bilhões. O BNB mantém o CrediAmigo como o maior programa de microcrédito produtivo orientado da América do Sul e é o principal operador do Acredita no Primeiro Passo, com R$ 13,42 bilhões desembolsados em 2025 e 2,2 milhões de clientes ativos, na mesma rota de inclusão financeira que o Banco do Brasil e o KfW começam a reforçar.
A trajetória de alta no segmento não é nova. Em entrevista ao podcast Let’s Money, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, apontava que o microcrédito reverteu uma queda média de 8% ao ano entre 2016 e 2018 para um crescimento de 22% anuais nos quatro anos seguintes, apoiado na entrada de novos competidores e no Open Finance. Na época, a aposta era infraestrutural; os números de Itaú e Santander mostram que ela começou a virar market share concreto.
O que observar
A entrada de bancos de varejo muda a economia do produto. Operadores tradicionais do PNMPO constroem capilaridade com equipes próprias e tíquete baixo — programas públicos históricos trabalham com ticket médio na casa dos R$ 3 mil, enquanto modelos de varejo já operam na faixa de R$ 10 mil. Quando um incumbente de varejo chega via agente autônomo e originação digital, ele aumenta o ticket, segmenta por score e tende a pescar o topo da base, deixando para os programas públicos a clientela de maior custo operacional. A pergunta é se isso acelera a inclusão ou apenas redistribui quem já tinha acesso.
O segundo ponto é a inadimplência. O teto de juros de 4% ao mês exige matriz de custos enxuta e cobrança eficiente, condições que pequenos empreendedores pressionados por ciclos curtos de caixa nem sempre conseguem sustentar. Vale acompanhar como os modelos de crédito dos grandes bancos — agora alimentados por Open Finance e dados alternativos — vão performar quando o ciclo econômico virar. O microcrédito sobreviveu à covid; o teste será o próximo aperto de liquidez.
Fontes: Valor Econômico • Banco do Nordeste • Let’s Money Podcast — Roberto Campos Neto