O juiz Scott Grossman, do Tribunal do Distrito Sul da Flórida, negou nesta terça-feira (28) o pedido da defesa de Daniel Vorcaro para barrar as buscas do liquidante do Banco Master por obras de arte, imóveis e outros ativos do ex-banqueiro nos Estados Unidos.
O que está em jogo no processo dos EUA
| Item |
Dado |
| Intimações emitidas pelo liquidante |
22 |
| Dívida com 830 Brickell Plaza (acima da caução) |
US$ 1,9 mi |
| Caução depositada pelo Master no início do contrato |
US$ 3,6 mi |
| Desvio alegado pela EFB (família Vorcaro) |
ao menos US$ 1 bilhão |
Valores do processo no Tribunal do Distrito Sul da Flórida. Fonte: Valor Econômico
Como a investigação chegou à Flórida
Após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, a EFB Regimes Especiais de Empresas, liquidante nomeada pelo BC, expandiu o escopo das buscas para os Estados Unidos. A Justiça americana reconheceu o processo e suspendeu automaticamente qualquer transferência de ativos do grupo no país. Em janeiro, o Let’s Money havia reportado que o BC identificou 36 empresas ligadas a um desvio de R$ 11,5 bilhões no Master.
No processo no Tribunal do Distrito Sul da Flórida, a EFB emitiu 22 intimações a galerias como Christie’s, Sotheby’s, Gagosian Gallery, David Zwirner e Hauser & Wirth, além de imobiliárias e instituições financeiras associadas a Vorcaro. O liquidante juntou aos autos conversas do banqueiro com a designer Luciana Junqueira sobre aquisição de obras de Pablo Picasso e Jean-Michel Basquiat. Em troca de mensagens com sua ex-noiva sobre imóveis que sempre negou possuir nos EUA, Vorcaro escreveu: “Não vão saber não. Já bolei um jeito. Vai aparecer um amigo russo rsrs”, segundo o processo.
A defesa e o acordo com o Brickell
A defesa de Vorcaro havia pedido ao juiz Grossman que limitasse as buscas, argumentando que a EFB estava agindo como um “trem desgovernado” e se antecipando à própria liquidação brasileira, que ainda poderia ser revertida. Grossman rejeitou o argumento. Em ação separada, a EFB alega que Vorcaro, seu pai Henrique e sua irmã Nathália desviaram ao menos US$ 1 bilhão e adquiriram uma mansão na Flórida, o que a família nega. A Reag, também ligada ao Master, havia sido liquidada pelo BC em janeiro.
Em paralelo, o liquidante fechou acordo com a Watson Brickell, dona do 830 Brickell Plaza, arranha-céu de luxo em Miami onde o Master alugava dois andares. O banco parou de pagar o aluguel em setembro de 2025. A EFB reconhece uma dívida que supera em US$ 1,9 milhão a caução de US$ 3,6 milhões depositada no início do contrato. “O imóvel foi adquirido em 2022 com recursos próprios, lícitos, resultantes da venda de uma empresa de saúde por R$ 1,5 bilhão, devidamente contabilizados e comunicados às autoridades legais”, afirmou a defesa de Henrique Vorcaro, representada pelo advogado Eugênio Pacelli.
O que observar
A decisão do juiz Grossman confirma que tribunais americanos estão dispostos a conferir ao liquidante ampla capacidade investigativa, mesmo com o processo de origem em estágios iniciais. O ponto de atenção é a coordenação de prazos: a investigação nos EUA avança em ritmo próprio, enquanto a liquidação doméstica ainda se organiza. A pergunta relevante é se o mapeamento de ativos internacionais chegará a tempo de influenciar o plano de recuperação dos credores, dado que os procedimentos do Chapter 15 operam com dinâmica independente do processo brasileiro.
Vale acompanhar também os desdobramentos das ações contra os controladores do grupo: se as alegações de desvio de US$ 1 bilhão forem sustentadas nos autos, o patrimônio rastreável pode se ampliar significativamente além dos ativos diretos do banco. A PF também investiga vazamentos de dados relacionados ao caso, adicionando uma camada ao processo já multi-jurisdicional.
Fontes: Valor Econômico • Let’s Money • Let’s Money • Let’s Money