A Klarna quer ter banco próprio nos Estados Unidos. A fintech sueca protocolou o pedido para criar o Klarna Bank USA e trazer para dentro a operação bancária que hoje roda por bancos parceiros, movimento que a afasta da origem no crédito parcelado (BNPL) e a habilita a captar depósitos e emprestar em nome próprio.
Klarna nos EUA em números
| Indicador |
Número |
| Usuários ativos por ano |
30 milhões de americanos |
| Crédito concedido desde 2019 |
US$ 91,3 bilhões |
| Juros de rotativo evitados |
US$ 5,1 bilhões |
Dados da operação da Klarna nos EUA. Fonte: fintech.global
O que muda com um banco próprio
A empresa submeteu o pedido ao Departamento de Instituições Financeiras de Utah e ao FDIC, o fundo garantidor de depósitos dos EUA, para estabelecer o Klarna Bank USA. Se aprovada, a instituição seria uma subsidiária integral, segurada pelo FDIC, com conselho, governança e controles próprios. Hoje a Klarna já opera um banco licenciado na Europa desde 2017, e o objetivo é replicar esse desenho no mercado americano, trazendo para dentro serviços de pagamento, poupança, crédito e soluções para lojistas que hoje dependem de terceiros.
“Um banco se constrói sobre confiança”, disse Sebastian Siemiatkowski, cofundador e CEO da Klarna, em tradução livre. Segundo ele, uma licença própria é o próximo passo natural para a companhia nos EUA. O pedido chega enquanto a fintech diversifica além do parcelado: acumulou 1 milhão de registros no cartão de débito americano, lançou uma stablecoin e sinalizou entrada em pagamentos entre pessoas (P2P), num momento em que metade dos usuários de BNPL nos EUA recorre à modalidade por necessidade. Para liderar o novo banco, a Klarna escolheu Gary Harding, ex-CEO do Milestone Bank e do Prime Alliance Bank.
A via mais contestada para virar banco
A Klarna não pediu uma licença bancária comum. Optou pelo charter de industrial bank de Utah, também chamado de industrial loan company (ILC): uma instituição estadual segurada pelo FDIC que capta depósitos e concede crédito como um banco, mas cuja controladora fica de fora do Bank Holding Company Act, a lei que enquadra holdings bancárias sob supervisão federal mais rígida. É uma rota estreita e antiga, e virou um teste sobre até onde a escala de uma fintech precisa de charter próprio.
O caminho é politicamente sensível. Parlamentares dos dois partidos, com apoio de parte do setor bancário, argumentam que o charter de ILC permite escapar da definição de “banco” sob aquela lei. Em janeiro de 2026, os senadores John Kennedy e Andy Kim apresentaram projeto para fechar o que chamam de “brecha do shadow banking”. Pedidos de industrial bank estão entre as aprovações mais litigadas do sistema financeiro americano, e a análise pode levar mais de um ano sem garantia de desfecho. O movimento tampouco é isolado: grandes varejistas e empresas de tecnologia já captam depósitos sem ter licença bancária própria, e a corrida por controlar o próprio funding se acelerou. No Brasil, o Nubank também busca uma licença bancária completa após mudança regulatória do Banco Central.
O que observar
O pedido reacende uma pergunta que vale para toda fintech que nasceu em um nicho de crédito ou pagamento e ganhou escala: até que ponto operar via bancos parceiros deixa de compensar. Ter depósitos próprios muda a estrutura de custo de funding e reduz a dependência de terceiros, mas troca um problema por outro, o de carregar capital, compliance e supervisão de um banco de verdade. Vale acompanhar se a via de charter escolhida sobrevive ao escrutínio regulatório e legislativo, e em que prazo, porque o desenho define quanto do modelo original de crédito ao consumidor precisará ser reorganizado para caber dentro de uma instituição segurada.
Fontes: Finextra • fintech.global • American Banker • PYMNTS