O governo federal determinou que o Banco Central e o Ministério da Fazenda estudem medidas para reduzir os juros do crédito rotativo do cartão, que atingiram 435,9% ao ano em fevereiro. A taxa é cerca de 30 vezes a Selic de 14,75% ao ano.
Custo do crédito no Brasil | Fevereiro 2026
Juros do crédito rotativo
Rotativo do cartão 435,9% a.a. |
Taxa média do sistema 33,0% a.a. |
Selic 14,75% a.a. |
Fonte: Banco Central / Valor Econômico
Rotativo de 435% contra cheque especial de 8%
“O presidente pediu para estudar a taxa de juros. Ele falou assim: ‘Olha, como é que pode um juro que é uma Selic por mês no crédito rotativo?’ Isso não tem justificativa”, disse Gleisi Hoffmann, ministra das Relações Institucionais, a jornalistas no Palácio do Planalto. Segundo ela, Lula também questionou a ausência de referência para o rotativo, já que o cheque especial já opera com teto regulatório de 8%.
Os dados divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira mostram que a taxa do rotativo subiu de 424,5% em janeiro para 435,9% em fevereiro, enquanto a taxa média do sistema ficou em 33% ao ano. Uma regra vigente já limita juros e custos financeiros do cartão a 100% do valor original da fatura não paga, mas a pressão do endividamento no cartão levou o governo a preparar novas medidas.
73 milhões de inadimplentes e pacote em gestação
O estudo sobre o rotativo faz parte de uma agenda mais ampla sobre o endividamento das famílias. Segundo dados do CNDL/SPC, 73,3 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em janeiro de 2026, com o comprometimento familiar com dívidas em 78,9% ao final de 2025, segundo a CNC. O estoque total de crédito atingiu R$ 7,15 trilhões em fevereiro.
O debate intensificou-se na semana passada, após Lula convocar ministros para tratar do endividamento e cobrar soluções de curto prazo. O Ministério da Fazenda, agora sob Dario Durigan, foi encarregado de elaborar propostas com impacto imediato. Entre as medidas em discussão estão uma linha do BNDES para carros sustentáveis voltada a motoristas de aplicativo e taxistas, a ampliação da linha de renovação de frota de caminhões, uma linha para distribuidoras postergarem reajustes de energia, e conversas com a Caixa sobre crédito para pessoas físicas e jurídicas. A inadimplência em recorde histórico acelerou o senso de urgência no governo.
O que observar
O precedente mais direto é o do cheque especial, que teve teto regulatório estabelecido em 2020. Na época, a resposta de emissores foi restringir acesso e limites, especialmente para faixas de renda mais baixa. Se uma lógica similar for aplicada ao rotativo, o risco é que famílias que hoje dependem dessa linha como válvula de emergência percam acesso sem uma alternativa de crédito equivalente.
A pressão é concreta: são 73,3 milhões de inadimplentes e endividamento familiar de 78,9%. Vale acompanhar se as medidas em gestação conseguem atacar o custo do crédito sem comprimir a oferta, e se o calendário eleitoral de 2026 vai acelerar anúncios pontuais ou abrir espaço para ajustes estruturais na política de crédito ao consumidor.
Fontes: Valor Econômico • Poder360 • Let’s Money