Oito em cada dez inadimplentes que ainda não fecharam acordo (84%) têm intenção de quitar as dívidas, e 58% preferem parcelar os débitos, aponta pesquisa da Monest baseada em mais de 20 mil conversas de renegociação entre novembro de 2025 e o início de maio de 2026. O paradoxo está na execução: a mediana dos acordos efetivamente fechados é de uma parcela.
Renegociação de dívidas: o que os dados mostram
| Dado |
Resultado |
| Intenção de pagar (sem acordo fechado) |
84% |
| Preferência por parcelamento |
58% |
| Preferência por pagamento à vista |
27% |
| Mediana dos acordos fechados |
1 parcela |
| Principais barreiras |
Entrada, parcelas, juros |
| Base do estudo |
+20 mil conversas (nov 2025 a mai 2026) |
Pesquisa Monest com base em conversas de renegociação de dívidas. Fonte: Valor Investe
A preferência declarada e o acordo real
Entre os inadimplentes que ainda não fecharam acordo, 58% afirmam preferir parcelar os débitos e 27% optam pelo pagamento à vista. Os demais não simularam nenhuma possibilidade ou não responderam. Apesar da preferência majoritária pelo parcelamento, a mediana dos acordos efetivamente fechados é de uma parcela, o que indica, segundo a Monest, que muitos consumidores conseguem liquidar rapidamente as dívidas após reorganizar o fluxo de caixa.
As principais barreiras relatadas para fechar acordos são o valor da entrada, o número de parcelas e os juros, numa ordem que revela sensibilidade ao desembolso imediato mais do que ao custo total da dívida. O contexto é de inadimplência em recorde histórico no sistema em janeiro de 2026, com pressão generalizada sobre o poder de renegociação dos consumidores.
Timing e personalização como variáveis centrais
“O mercado historicamente tratou inadimplência como resistência do consumidor, mas os dados mostram outra realidade. A maior parte das pessoas quer pagar, só não consegue encaixar aquela oferta naquele momento. Isso muda completamente a lógica da cobrança, porque o foco deixa de ser pressão e passa a ser inteligência de oferta, personalização e experiência”, disse Thiago Oliveira, CEO da Monest. A empresa opera com agentes de IA para renegociação via WhatsApp, e-mail e chat, atendendo mais de 350 empresas com modelo SaaS e soluções white-label para bancos e fintechs.
“O parcelamento não é mais uma condição comercial e sim um mecanismo de entrada na negociação. O consumidor quer resolver o problema, mas precisa de ofertas compatíveis com sua realidade financeira imediata”, completou o executivo. A aplicação de IA em cobrança vem ganhando escala: nos EUA, agentes de IA já realizam 20 mil ligações por dia em cobrança bancária, sinal de que a automação do processo começa a ser padrão de mercado.
O que observar
Se a preferência declarada é parcelamento, mas o acordo que de fato fecha é em uma parcela, a variável determinante provavelmente não é o número de parcelas em si, mas o timing da abordagem e o valor do primeiro desembolso. Para credoras e fintechs de recuperação de crédito, o dado sugere que a janela para fechar o acordo é mais curta do que os modelos tradicionais de cobrança assumem: depois que o consumidor organiza minimamente o fluxo de caixa, ele tende a liquidar à vista. A questão operacional é saber identificar esse momento antes que ele passe.
Vale ponderar que os dados são de uma empresa com interesse direto no mercado de recuperação de crédito, o que não invalida os achados, mas recomenda cruzamento com fontes independentes. O dado da mediana de uma parcela, em particular, é coerente com o comportamento observado em programas governamentais de renegociação em larga escala.
Fontes: Valor Investe • Finsiders Brasil • Let’s Money • Let’s Money