O governo lançou o novo Desenrola Brasil com R$ 100 bilhões em dívidas elegíveis para 20 milhões de pessoas e, em paralelo, estuda uma linha de crédito específica para endividados que mantêm pagamentos em dia, para evitar que a inadimplência se torne estratégia de acesso ao programa.
Novo Desenrola Brasil em números
| Métrica |
Dado |
| Dívidas elegíveis |
R$ 100 bilhões |
| Pessoas alcançadas |
~20 milhões |
| Negativados c/ débito até R$ 1 mil |
11 milhões |
| Custo estimado para quitar o grupo menor |
< R$ 500 milhões |
| Parcela mínima |
R$ 50 |
Dados do novo Desenrola Brasil. Fonte: Valor Econômico
Como o Desenrola chega às dívidas pequenas
Do total de 20 milhões de pessoas elegíveis, 11 milhões estão negativadas com débitos de até R$ 1 mil. O secretário-executivo da Fazenda, Rogério Ceron, usou um exemplo concreto para dimensionar a operação: uma dívida de R$ 1 mil com seis meses de atraso pode ser regularizada por R$ 150, com opção de parcelamento em três vezes de R$ 52. “Você tem uma concentração muito grande em dívidas pequenas, só para mostrar a relevância da política pública”, disse. Para quitar esse grupo inteiro, o governo estima que bastaria menos de R$ 500 milhões, volume modesto diante do impacto social projetado.
Para ampliar as garantias do programa, o governo propõe direcionar ao Fundo de Garantia de Operações (FGO) os recursos não resgatados do Sistema de Valores a Receber (SVR). O mecanismo usa o dinheiro esquecido no sistema bancário como colchão de garantia, permitindo condições mais favoráveis nas renegociações. Ceron descartou risco jurídico na medida e disse que hoje existem três alternativas: manter os recursos nas tesourarias dos bancos, transferi-los ao Tesouro (já autorizado em lei) ou direcioná-los ao FGO. “Estamos criando um modelo mais saudável, que pode contribuir para a redução do spread bancário. Não tenho dúvida de que é a melhor solução para o país”, afirmou.
Crédito para quem não atrasou e linha para motoristas de app
A maior novidade do plano está no que vem depois do Desenrola. A Fazenda estuda uma linha de crédito voltada a pessoas altamente endividadas, mas que ainda mantêm os pagamentos em dia. A lógica é explícita. “Isso é importante para também não gerar um incentivo para ficar inadimplente”, disse Ceron. A medida buscaria atender um público que, sem uma saída alternativa, poderia optar por parar de pagar para se enquadrar nos critérios do programa de renegociação.
O secretário mencionou ainda que o governo avalia uma linha de crédito para motoristas de aplicativo adquirirem veículos, tratando a operação como formação de patrimônio, não como crédito ao consumo. A iniciativa se inspira na lógica do crédito habitacional, que, segundo Ceron, “aumenta a poupança das famílias”. O contexto é o de inadimplência em nível recorde no início de 2026, pressionada por juros altos e endividamento das famílias.
O que observar
A proposta de crédito para endividados adimplentes levanta uma questão operacional crítica: como definir o perfil elegível sem criar novos incentivos perversos? Se a linha exigir alto endividamento combinado com adimplência, o critério precisa ser preciso o suficiente para não estimular o acúmulo de dívidas como requisito de acesso. O design desse produto vai determinar se a medida complementa o programa de renegociação ou gera efeitos colaterais no comportamento dos tomadores de crédito.
O uso do SVR para reforçar o FGO é a peça mais relevante para instituições financeiras: se o mecanismo funcionar, reduz o risco das renegociações e abre espaço para spread menor. Vale acompanhar qual volume efetivo de recursos do SVR migrará ao FGO e como os bancos vão precificar essa garantia adicional, em especial nos segmentos de maior inadimplência histórica.
Fontes: Valor Econômico • Agência Brasil • Let’s Money • Let’s Money