Analistas do Citigroup projetam que o Nubank nos EUA pode alcançar US$ 21 bilhões em carteira até 2030 se o banco obtiver 2% de participação em Califórnia, Texas e Flórida, enquanto Cristina Junqueira, cofundadora da fintech brasileira, admite que construir marca no país é o maior desafio da operação que mal saiu do papel.
Onde o Nubank quer chegar nos EUA
| Indicador |
Número |
| Market cap global |
US$ 72 bilhões |
| Base Brasil |
Mais de 60% dos adultos e US$ 40 bilhões em depósitos |
| Aprovação bancária EUA |
Condicional do OCC em 29 de janeiro; meta de operar em 18 meses |
| Projeção Citi até 2030 |
US$ 21 bi em carteira com 2% de share em CA, TX e FL |
| ROE projetado EUA |
20% contra média nacional de 12% |
Fonte: Bloomberg Línea com base em entrevista à Bloomberg News e relatório do Citi.
O pulo do gato não está na licença, está na marca
Junqueira, 43 anos, se mudou de São Paulo para o sul da Flórida para tocar a operação pessoalmente, após o banco receber aprovação condicional do OCC em 29 de janeiro para um charter bancário nacional. Ela contou que passou meses tentando obter um cartão de crédito numa divisão de private banking de uma grande instituição americana logo que desembarcou em Miami, e usou a experiência como prova da tese fundadora. “Nós sabemos como resolver esses problemas”, disse Junqueira à Bloomberg News. A mesma entrevista trouxe seu próprio resumo do desafio: “Nada será mais difícil do que construir uma marca nos EUA”.
Miami virou base natural pelo peso hispânico do condado e pelo apelo que o nome Nubank tem entre americanos com laços latinos. A aposta vai além do público latino: o banco abriu um centro de IA em Palo Alto e filial perto de Washington, contratou executivo vindo do TikTok para marketing de aquisição e colou seu nome no estádio onde o Inter Miami CF de Messi joga em casa, além de patrocinar um carro da Fórmula 1 ligado ao Mercedes-Benz Group.
Citi projeta US$ 21 bi e ROE 20% na aposta hispânica
Em relatório de março, o analista Gustavo Schroden, do Citi, estimou que o Nubank pode chegar a US$ 21 bilhões em carteira de empréstimos nos EUA até 2030 se conquistar 2% de participação em Califórnia, Texas e Flórida, os três estados com maior população hispânica. O volume equivaleria a cerca de 60% da carteira atual no Brasil e se compararia ao de um banco regional americano de médio porte.
A tese bull é o custo. “O Nu ainda pode superar a média dos EUA graças ao seu baixo custo de atendimento”, escreveu Schroden. O Citi projeta retorno sobre patrimônio líquido de 20% para a operação americana, quase o dobro dos 12% de média do setor bancário no país. O movimento compete diretamente com outro gigante brasileiro de olho no mesmo público: o Itaú também pediu licença para operar nos EUA e mira clientes de alta renda latinos, buscando se diferenciar do modelo de Nubank e Inter.
Em entrevista ao podcast Let’s Money em 2024, Valter Pereira, criador do AW Fintechs, sustentou que “o futuro da inovação financeira está nos mercados emergentes, não nos desenvolvidos”. O teste americano do Nubank inverte a geografia dessa tese: tenta exportar um modelo forjado em Pix, Open Finance e institucionalidade regulatória agressiva para um mercado onde essas alavancas não existem no mesmo nível.
O que observar
O primeiro ponto é se um custo operacional baixo, construído com alavancas regulatórias de um mercado emergente, sobrevive ao CAC de marketing americano. Campanhas de topo de funil nos EUA custam mais caro e competem com anunciantes de todos os setores, não só financeiros. O diferencial de eficiência que funciona na América Latina pode ser consumido só pelo custo de reconhecimento da marca no primeiro biênio de operação, e a margem projetada por analistas costuma subestimar esse gasto no primeiro ciclo.
O segundo ponto é a arbitragem de remessas. Fintechs latino-americanas capazes de oferecer transferência de conta a conta entre os EUA e países emissores têm vantagem estrutural sobre bancos de varejo americanos, que dependem de redes correspondentes mais lentas e caras. Vale acompanhar se essa vantagem vira gatilho de aquisição gratuita, transformando remessa em produto de entrada em vez de linha de receita, num ambiente em que o custo de adquirir um novo cliente é a variável que decide a viabilidade da tese.
Fontes: Bloomberg Línea • Nu International • Let’s Money • Let’s Money Podcast