O Nubank passou a filtrar candidatos por “mentalidade de IA”. Em um painel no Config, conferência anual do Figma em San Francisco, Ellen Kiss, diretora do Centro de Excelência em Design do banco, afirmou que o plano de contratações não encolheu: o que mudou foi o perfil de quem entra. A inteligência artificial deixou de ser ferramenta pontual e virou critério de seleção.
“Estamos procurando pessoas que tenham uma mentalidade voltada para IA”, disse Kiss. A executiva separou dois pontos que costumam se misturar no debate atual sobre vagas e automação. “Não estamos contratando menos. Estamos, na verdade, contratando de forma diferente”, afirmou. A justificativa é que a tecnologia virou parte da estratégia: “A IA passou a estar tão integrada à nossa estratégia que hoje priorizamos IA em praticamente tudo, especialmente nas contratações”, disse ao público.
IA dentro do RH
O ponto mais revelador foi onde essa lógica já opera. Kiss contou que a tecnologia entrou em processos sensíveis de gestão de pessoas, da contratação a recompensas e avaliações de desempenho. “Ela se tornou um componente importante na forma como administramos a empresa”, disse. É um movimento que vai além de usar IA no produto: coloca a inteligência artificial na própria estrutura de decisão sobre quem é contratado, promovido e bonificado dentro do banco.
Uma operação desenhada para escala
A exigência não nasce no vácuo. Ela vem de uma empresa que atende mais de 118 milhões de clientes no Brasil, no México e na Colômbia, e que transformou design e tecnologia em vantagem competitiva. O Nubank vem ampliando a atuação para além dos serviços financeiros, movimento que aparece em iniciativas como o NuCel, que consolidou o banco como plataforma.
O design system do Nubank em números
| Indicador |
Dado |
| Designers na ferramenta |
Mais de 200, em 3 países |
| Componentes reutilizáveis |
Mais de 100 |
| Linhas de código |
Cerca de 320 mil |
| Telas alinhadas ao NuDS |
80% |
| Satisfação interna (NPS) |
Dobrou em um ano |
Estudo de caso do design system (NuDS) do Nubank. Fonte: Figma
O banco construiu o NuDS inteiramente dentro do Figma. Segundo o estudo de caso da plataforma, mais de 200 designers usam a ferramenta nos três países, com mais de 100 componentes reutilizáveis e cerca de 320 mil linhas de código. Uma auditoria recente apontou que 80% das telas do app já estão alinhadas ao sistema, e o NPS interno dobrou em um ano. Mudanças que levariam semanas passaram a sair em um único sprint.
Sobre essa base, a IA avança. O Nubank testa o Figma Make, ferramenta de design baseada em IA, para acelerar prototipagem e validação com usuários. A aposta em embutir inteligência artificial no fluxo de trabalho ecoa o que outros grandes bancos fazem em engenharia, como o Itaú, que acelerou o desenvolvimento de software com agentes de IA.
O que observar
O dado a acompanhar é se “mentalidade de IA” vira requisito padrão de contratação no setor financeiro, e o que isso faz com perfis técnicos que não nasceram nesse contexto. Quando a fluência em IA passa a pesar tanto quanto a competência específica, áreas de design, produto e engenharia tendem a redesenhar trilhas de carreira e critérios de senioridade num prazo curto.
O ponto mais delicado é a inteligência artificial entrando em recompensas e avaliação de desempenho. Vale acompanhar como instituições financeiras vão equilibrar ganho de eficiência com transparência: se algoritmos passam a informar decisões sobre promoção e bônus, a pergunta operacional é quem audita esses critérios e como o colaborador entende a régua que está sendo aplicada.
Fontes: Exame • Figma • Let’s Money • Let’s Money