Open Finance pode reduzir juros e organizar contas, mas só 37% dos brasileiros usam
Cinco anos após o lançamento, sistema já movimenta bilhões de requisições semanais, mas pouco mais de 1/3 dos brasileiros autorizam o compartilhamento de dados
Cinco anos após entrar em vigor, em fevereiro de 2021, o Open Finance já é conhecido por 76,8% dos brasileiros, mas ainda está longe de ser amplamente utilizado. Apesar do alto nível de conhecimento, apenas 37,1% autorizaram o compartilhamento de dados bancários, segundo o estudo “Do PIX ao planejamento financeiro: como a tecnologia está mudando nossa relação com o dinheiro”, conduzido pela Lina Open X em parceria com a MindMiners.
O dado expõe um paradoxo relevante: embora três em cada quatro brasileiros (75,2%) digam que gostariam de reunir todas as suas contas em um único aplicativo, menos da metade dá o passo necessário para que isso aconteça. Hoje, o sistema soma cerca de 143 milhões de consentimentos ativos, segundo o dashboard do Open Finance Brasil, número expressivo, mas ainda aquém do potencial de um país com mais de 150 milhões de adultos bancarizados.
Para o Diretor de Negócios da Lina Open X, Murilo Rabusky, o desafio já não é somente estrutural. “Estamos diante de uma tecnologia que funciona, é segura, está amplamente disponível e é frequentemente percebida como útil por quem já utilizou, mas que ainda depende de uma adoção mais estratégica por parte das instituições do mercado, que podem utilizar os dados compartilhados em benefício dos seus clientes, aumentando a percepção de valor e, consequentemente, a adesão”, afirma.
Como o Open Finance já faz diferença no bolso
O impacto mais tangível do sistema aparece no crédito. Com acesso a um histórico financeiro mais completo, sempre mediante consentimento, bancos e fintechs conseguem avaliar melhor o risco do cliente, o que tende a resultar em taxas mais competitivas para bons pagadores. O sistema registrou crescimento de 44% no último ano e movimenta cerca de 2,3 bilhões de requisições de dados bem-sucedidas por semana, segundo a Febraban.
Na prática, a economia pode ser relevante:
Um financiamento de veículo contratado a 2,8% ao mês em 2022 pode hoje ser portado para algo próximo de 1,9%.
Em um saldo devedor de R$ 30 mil, a economia pode ultrapassar R$ 3 mil ao longo do contrato.
No crédito pessoal, a redução pode representar até 40% no custo total do empréstimo.
A partir de fevereiro de 2026, a portabilidade via Open Finance deve ter o prazo reduzido de cinco para três dias úteis, com acompanhamento digital em tempo real, o que tende a acelerar ainda mais a migração para juros menores.
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Tecnologia avança, comportamento nem tanto
Se o crédito mostra ganhos concretos, os hábitos financeiros revelam uma lacuna comportamental. Embora 71,8% dos entrevistados afirmem que a tecnologia ajuda a melhorar a relação com o dinheiro, apenas 18,9% utilizam aplicativos de controle financeiro no dia a dia. Em paralelo, 31,6% ainda registram despesas manualmente, em cadernos ou planilhas, e 16,1% não realizam qualquer tipo de controle.
O contraste é ainda mais evidente quando se observa que 81% dos brasileiros dizem que o aplicativo é seu principal canal de relacionamento com o banco, mas somente 23,1% seguem as orientações financeiras personalizadas recebidas por esse meio. Como consequência, apenas 26% conseguem poupar todos os meses e só 12,8% se sentem totalmente preparados para lidar com imprevistos financeiros.
Para Rabusky, esse descompasso mostra que o problema não é mais a infraestrutura.“Os bancos e as fintechs avançaram muito em digitalização, mas grande parte desse esforço ainda não se traduz em mudança concreta de comportamento quando o assunto é educação financeira, controle de gastos e formação de poupança. Existe uma grande oportunidade para transformar os aplicativos bancários em ferramentas efetivas de educação e gestão financeira integrada à rotina das pessoas, desde que a usabilidade, o engajamento e a personalização sejam tratados como parte fundamental da estratégia de diferenciação e fidelização de clientes”, diz.
Segurança técnica ainda não virou confiança
Mesmo operando sob regras rígidas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com consentimento explícito, criptografia e supervisão do Banco Central, o Open Finance ainda enfrenta resistência. Para 56,3% dos entrevistados, segurança e medo de golpes são a principal preocupação em relação aos meios digitais.
“A segurança no Open Finance é comparável, ou até superior, à de transações bancárias tradicionais, porque há padrões e protocolos internacionais, auditoria constante e transparência sobre o uso dos dados. O desafio é transformar essa segurança técnica em segurança percebida”, afirma o Diretor da Lina Open X.
A questão se conecta a um entrave estrutural: 37% dos brasileiros afirmam nunca ter recebido qualquer orientação em educação financeira. Entre os principais obstáculos para uma vida financeira mais equilibrada estão a falta de renda, citada por 27%, e a ausência de hábito e disciplina no planejamento, mencionada por 26%.
Desde julho de 2024, a Resolução Conjunta nº 8 do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional tornou obrigatória a implementação de políticas estruturadas de educação financeira por parte das instituições, com foco em orçamento, poupança e prevenção ao superendividamento — um movimento que reforça a responsabilidade do setor na construção de um ecossistema mais sustentável.
Com mais de 900 instituições participantes, investimentos bilionários e reconhecimento internacional, o Brasil já se consolidou como referência global em Open Finance. Mas, cinco anos depois do lançamento, o próximo salto depende menos de tecnologia e mais de confiança, clareza de benefício e uso prático.
Porque, no fim das contas, o que determina a adesão não é a inovação em si, é o impacto direto no bolso.