BC acompanha possibilidades para um Pix internacional
Segundo o chefe de gabinete Ângelo Duarte, o Banco Central estuda caminhos para um Pix internacional, mas vê o entrave na governança, não na tecnologia.
O Banco Central (BC) está de olho na ideia de um Pix internacional, por diferentes caminhos possíveis e sem nenhuma decisão de lançamento à mesa, afirmou Ângelo José Mont’Alverne Duarte, chefe de gabinete do diretor de organização do sistema financeiro e de resolução (Diorf) do BC. Na leitura dele, ligar diretamente o sistema brasileiro ao de outro país seria a saída mais elegante, mas também bem mais custosa. A fala veio após palestra sobre a trajetória do Pix, em evento da Fundação Getulio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro.
Por que o entrave não é tecnológico
Do ponto de vista técnico, ligar dois sistemas de pagamento é viável com a infraestrutura do Pix, segundo o representante do BC. A trava estaria adiante: seria preciso montar, para cada conexão, uma estrutura própria de governança e de regras. Como cada país tem suas próprias leis e normas, resolver isso de forma individual para muitas jurisdições ao mesmo tempo fica mais complicado. Duarte apontou ainda diferenças de operação e no jeito de reconhecer uma conta: no Brasil, o par agência e número; em outros lugares, esquemas de numeração distintos.
“A governança dessa interconexão e a regulação dessa interconexão não são coisas tão triviais, na medida em que você tem, vamos dizer assim, países diferentes, reguladores diferentes, leis diferentes”, disse Duarte.
O que o BC coloca sobre a mesa
Ponto descrito por Duarte
Por que pesa
Governança e regulação
Teria de ser criada para cada conexão feita
Custo
Ligar dois sistemas diretamente é mais elegante, porém mais caro
Regras por país
Leis e normas distintas travam a solução individual
Identificação de contas
Agência e conta no Brasil ante outras formas de numeração
Pontos descritos por Ângelo Duarte, chefe de gabinete do diretor da Diorf. Fonte: Valor Econômico
Publicidade
As possibilidades que o BC observa
Duarte desenhou pelo menos dois caminhos. Um deles é a ligação direta entre sistemas, feita país a país. O outro seria erguer um hub, uma infraestrutura própria que já concentrasse a associação de várias redes nacionais e onde quem quisesse enviar um Pix ao exterior entraria para completar a operação. Como exemplo, citou o Nexus. O projeto é conduzido pelo BIS, o Banco de Compensações Internacionais, e busca unir vários sistemas nacionais de transferência instantânea. A iniciativa arrancou em nações asiáticas como Índia, Singapura, Malásia, Tailândia e Filipinas.
O tema também consta de um balanço sobre a administração do Pix publicado em agosto. Ali, a autoridade afirma acompanhar operações que cruzam fronteiras já tocadas por empresas privadas, as quais vêm levando o Pix a brasileiros no exterior, e diz estudar ligar a rede brasileira a sistemas instantâneos de outros países, seja por acordos bilaterais, seja pela adesão a plataformas multilaterais. No mercado, iniciativas assim já existem, caso de bancos que conectam trilhos de pagamento instantâneo entre países.
O próprio chefe de gabinete tratou o assunto como algo a amadurecer. “O passo mais elegante [para um Pix internacional] é conectar dois sistemas. Isso é uma coisa que é factível com o Pix. Mas ainda é uma coisa a se estudar, os custos e os benefícios disso”, afirmou. A arquitetura, ponderou, tem de ser pensada por uma ótica de custo-benefício, já que o gasto com essas transações pode passar do próprio volume de recursos que corre no fluxo.
O que observar
A conversa sobre um Pix que cruze fronteiras segue no terreno do estudo, não do lançamento. O que vale acompanhar é qual das possibilidades ganha tração: a ligação direta entre sistemas, mais cara, ou a entrada em um hub multilateral que já reúna várias redes. Também merece atenção como avança o debate sobre governança e regras de cada conexão, porque é aí, e não na tecnologia, que está o obstáculo apontado. Por ora, o uso do Pix fora do país segue avançando pela via privada, com o BC no papel de quem monitora e pesa alternativas.