O regime que regula o buy now, pay later (BNPL) no Reino Unido entrou em vigor, submetendo as fintechs de parcelamento a análise de crédito, regras de transparência e supervisão do Financial Conduct Authority (FCA). O movimento vai na direção oposta à do Brasil, onde o Banco Central desistiu, em dezembro de 2025, de criar regras específicas para o Pix parcelado.
O que muda no BNPL britânico
| Regra |
O que exige |
| Consumer Duty |
Informação clara sobre valores, prazos e atraso |
| Análise de crédito |
Checagem proporcional da capacidade de pagamento |
| Suporte |
Ajuda a clientes em dificuldade financeira |
| Reclamações |
Acesso ao Financial Ombudsman Service |
| Autorização |
FCA ou regime temporário, 6 meses para autorização plena |
Novas regras do FCA para o BNPL, em vigor desde 15 de julho de 2026. Fonte: FCA
O que passa a valer para o BNPL
Pelas novas regras, o BNPL entra no Consumer Duty, que obriga os provedores a dar ao consumidor informações claras e antecipadas sobre o acordo, incluindo quando os pagamentos vencem, os valores e o que acontece em caso de atraso. Os credores também terão de fazer verificações proporcionais para garantir que o cliente pode pagar antes de conceder o crédito, além de oferecer suporte a quem estiver em dificuldade financeira.
Se algo der errado, o consumidor poderá recorrer ao Financial Ombudsman Service. A partir de agora, os credores precisam ser autorizados pelo FCA ou integrar um regime de permissões temporárias, com uma janela de seis meses para pedir a autorização plena. Nos dias que antecederam a virada, a Klarna passou a oferecer uma checagem de dívida aos usuários britânicos.
Um mercado de £13 bilhões sob supervisão
O BNPL cresceu de forma expressiva no Reino Unido, saltando de £0,06 bilhão em 2017 para mais de £13 bilhões em 2024. Segundo a Financial Lives Survey de 2024 do FCA, 20% dos consumidores britânicos, ou 10,9 milhões de adultos, usaram a modalidade nos 12 meses até maio de 2024.
“A entrada do BNPL sob a regulação do FCA é um passo bem-vindo na longa jornada de alinhar o setor às proteções ao consumidor já vigentes em outros produtos de crédito”, afirmou James O’Donnell, diretor de pesquisa e consultoria da TransUnion (em tradução livre). Nem todos veem apenas ganhos: a Fair4All Finance apontou que quase metade dos que tendem a ser recusados nunca atrasou um pagamento de BNPL. “A necessidade de crédito não desaparece quando você não consegue acesso, e as pessoas muitas vezes são empurradas para alternativas mais caras ou não reguladas”, disse Kate Pender, presidente-executiva da organização (em tradução livre).
Enquanto o Brasil recuou no Pix parcelado
O caminho britânico contrasta com o brasileiro. Após sucessivos adiamentos, o Banco Central desistiu, em dezembro de 2025, de criar regras específicas para o Pix parcelado, modalidade em que cada instituição define livremente taxas, prazos e forma de cobrança. Produtos como o parcelamento via Pix fora do limite do cartão seguem em expansão sem um marco dedicado.
O que observar
O ponto a acompanhar é o efeito das checagens de capacidade de pagamento sobre quem tem histórico de crédito curto. Se quase metade dos consumidores que tendem a ser recusados nunca atrasou uma parcela, a régua de acessibilidade pode empurrar parte da demanda para linhas mais caras ou informais, justamente o oposto do que a proteção pretende. Para as fintechs de parcelamento e plataformas de crédito no ponto de venda, o custo de compliance e a integração de dados de inadimplência ao monitoramento de resultados viram variável competitiva.
No Brasil, onde o parcelamento embutido no Pix avança sem marco específico, vale observar se a experiência de trazer o BNPL para o mesmo guarda-chuva dos demais produtos de crédito influencia o debate regulatório local, sobretudo em torno de transparência de custo e do risco de superendividamento.
Fontes: Finextra • FCA • Agência Brasil • Klarna se prepara para regra do BNPL • Pix parcelado fora do limite do cartão