O Santander assinou um memorando de entendimento com a G42, gigante de tecnologia de Abu Dhabi, para co-construir uma camada de inteligência bancária com agentes de IA. O acordo cobre todas as operações globais do banco, o que inclui o Brasil, e foi anunciado em 3 de junho. A meta declarada pela própria instituição é gerar 1 bilhão de euros em valor de negócio adicional com IA (combinando aumento de receita e corte de custos) nos próximos dois anos.
Quem traz o quê para a parceria
| Lado |
Empresa |
Contribuição |
| Bancário |
Santander |
Escala, base de clientes, expertise regulatória |
| Tecnologia |
G42 |
IA, cloud e infraestrutura |
| Agentic |
Inception (G42) |
Plataforma de agentes Catalyst |
| Applied AI |
Presight (G42) |
Camada de IA aplicada a sistemas inteligentes |
Distribuição de papéis descrita no release oficial. Fonte: Santander
O que a parceria deve construir
As frentes iniciais cobrem advisory e poupança apoiadas em IA, e uma camada de inteligência bancária ampla, que atravessa as operações do Santander no mundo. A G42 entra com duas empresas do grupo: a Inception, focada em IA agentic, e a Presight, especializada em IA aplicada. A leitura do banco é que essa camada não vai ficar como um produto isolado, mas vai virar infraestrutura comum para advisory, poupança e serviços bancários cotidianos.
“This agreement reflects Santander’s conviction that artificial intelligence will be foundational to the future of banking, not a feature layered on top of it” (“este acordo reflete a convicção do Santander de que a IA será fundacional para o futuro do bancário, e não um recurso aplicado por cima”, em tradução livre), afirmou Ricardo Martín Manjón, chief data and AI officer do banco, em comunicado.
Em cima do deal com OpenAI
O MoU com a G42 chega quase um ano depois de o Santander fechar acordo com a OpenAI para rodar o ChatGPT Enterprise em deploy rápido a cerca de 15 mil funcionários em dois meses (com meta de 30 mil até o fim de 2025). A combinação dos dois movimentos coloca o banco numa posição de comprador estratégico em mais de uma camada de IA: modelos de fundação no fornecedor americano e agentes mais aplicação dedicada com o grupo dos Emirados. A escolha por trabalhar em pelo menos dois eixos sinaliza que o banco prefere distribuir dependências em vez de concentrar a tese inteira numa só big tech.
O movimento aparece em paralelo a outros sinais da estratégia atual do Santander. Pesquisa recente do próprio banco mostrou que IA está avançando primeiro em bancos, varejo e telecom, com adoção corporativa concentrada nesses três setores. Em paralelo, o banco vai incorporar a Esfera, sua subsidiária de fidelidade avaliada em R$ 1 bilhão, em operação que ainda depende de aprovação em assembleia. O movimento combina com a aposta em IA: mais dados consolidados, menos atrito de produto.
O que observar
Vale acompanhar como operações brasileiras de bancos globais vão absorver a nova camada de IA. Bancos médios e fintechs locais que dependem de modelos de IA terceirizados de poucos fornecedores podem ficar em desvantagem competitiva se incumbentes globais passarem a operar com agentes próprios afinados a um stack co-desenvolvido. Reguladores, por sua vez, tendem a olhar com mais atenção para a governança de dados, a residência das informações e a explicabilidade dos modelos em decisões de crédito e advisory.
Outra frente é a corrida pela camada de aplicação. O acordo coloca um banco grande dentro de uma rede que combina cloud, infraestrutura, modelos próprios e agentes verticalizados. Esse padrão tende a se replicar entre incumbentes globais e pode reduzir o espaço para players de software bancário tradicional, que vendem soluções pontuais. A pergunta operacional é quanto desse stack vai virar oferta para terceiros no longo prazo e quanto fica restrito à própria base do banco.
Fontes: Finextra • Santander • G42