O TikTok está explorando um recurso que permitiria aos usuários enviar dinheiro uns aos outros por mensagens diretas, segundo indícios encontrados no código do aplicativo para iPhone nos Estados Unidos. O movimento aparece quase cinco meses depois de a ByteDance pedir ao Banco Central duas licenças para operar serviços financeiros no Brasil.
O que o código do aplicativo indica
| Elemento |
Indicação |
| Processamento |
TikTok Pay |
| Ação do destinatário |
Tocar para aceitar antes do vencimento de um prazo |
| Acompanhamento do remetente |
Notificações ou caixa de entrada do app |
| Mensagem junto ao pagamento |
Referências no código, formato semelhante ao Venmo |
| Estágio |
Em desenvolvimento, sem teste em nenhum mercado |
| Onde o TikTok Pay opera hoje |
Vietnã, Malásia e Tailândia |
Indícios encontrados na versão atual do aplicativo para iPhone nos Estados Unidos, em agosto de 2026. Fonte: InfoMoney
Como os pagamentos do TikTok funcionariam
Pelo que o código sugere, o destinatário teria de “tocar para aceitar” o valor recebido antes do vencimento de um prazo determinado, e o remetente acompanharia o status por notificações ou pela caixa de entrada do aplicativo. Há ainda referências à possibilidade de anexar uma mensagem ao pagamento, formato parecido com o do Venmo, serviço da PayPal. Um porta-voz do TikTok afirmou que o recurso não está em testes em nenhum mercado neste momento, e não há garantia de que a companhia vá lançá-lo.
O TikTok Pay, que faria o processamento, está disponível hoje apenas no Vietnã, na Malásia e na Tailândia, onde é usado para pagamentos dentro do TikTok Shop. Um sistema nativo de transferências manteria dentro do aplicativo transações que hoje escapam dele: muitos usuários divulgam contas do Venmo, do Cash App ou de outros serviços nos perfis para receber dinheiro fora do aplicativo. Consumidores no mundo todo já gastaram mais de US$ 2,9 bilhões no TikTok em 2026, segundo a Sensor Tower, e o aplicativo lidera globalmente as receitas com compras dentro de aplicativos desde 2022.
A frente financeira da ByteDance já passa pelo Brasil
Em 31 de março de 2026, a ByteDance pediu ao Banco Central autorização para operar como instituição de pagamento e como sociedade de crédito direto. No mesmo dia, Liao Baohua, chefe de Pagamentos Globais da companhia, esteve com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, em Brasília. Nenhum dos dois pedidos foi aprovado até agora.
O pedido tem lastro operacional. O TikTok Shop completou um ano de Brasil com crescimento de 102 vezes no GMV médio diário, segundo a própria empresa, na comparação entre maio de 2025 e maio de 2026. No mesmo intervalo, a média de criadores afiliados ativos cresceu 46 vezes e o GMV médio diário gerado por transmissões ao vivo aumentou 161 vezes.
A frente financeira vem sendo montada com gente do mercado. TikTok e ByteDance abriram vagas nos Estados Unidos e em outros países para funções ligadas a produtos financeiros, e vários executivos da expansão de pagamentos da companhia vieram do JPMorgan Chase. Em abril de 2026, a rede social e a Visa lançaram um cartão para criadores no Reino Unido. Algumas ferramentas de pagamento do TikTok também estão no centro de ações judiciais de procuradores-gerais estaduais nos Estados Unidos, que alegam facilitação de exploração financeira de menores e, em alguns casos, violação de leis de transferência de dinheiro.
O caminho não é exclusivo. No X, de Elon Musk, o X Money já virou conta bancária dentro do aplicativo, com cartão e rendimento sobre o saldo.
O que observar
A aposta das redes sociais em transferências entre usuários é menos sobre receita de pagamento e mais sobre retenção de dado e de tempo. Quando o usuário sai do aplicativo para pagar alguém, a plataforma perde o registro da transação, o contexto do relacionamento e a chance de oferecer crédito depois. Vale acompanhar se plataformas de vídeo curto vão tratar a transferência como produto financeiro autônomo ou apenas como cola entre comércio e criador, porque as duas escolhas pedem estruturas regulatórias e times bem diferentes.
No Brasil, o desenho seria outro. Aqui não falta trilho de transferência instantânea entre pessoas, e uma carteira embutida em rede social competiria com o Pix, gratuito para quem transfere e operado pelo próprio regulador. A pergunta prática é se o valor estaria na transferência em si ou no que vem depois dela, como saldo parado, crédito ao criador e antecipação de recebível de venda. Vale acompanhar também qual licença o BC concede primeiro em pedidos desse tipo, já que autorização para emitir moeda eletrônica e autorização para conceder crédito abrem produtos com riscos e prazos de maturação bem distintos.
Fontes: InfoMoney • TikTok Newsroom • StartSe