O avanço do Pix consolidou uma nova dinâmica nos meios de pagamento no Brasil, mas a principal transformação do varejo pode estar menos no pagamento em si e mais no que acontece ao redor da operação: crédito, dados, conversão e relacionamento com o consumidor. A leitura é reforçada pelo Varejo Finance Report 2026, da GIRO.TECH, que mostra como o checkout deixou de ser apenas o momento final de uma compra para se tornar parte estratégica da jornada de consumo.
Pix lidera no volume, mas cartão segue no parcelamento
Em 2025, os meios eletrônicos movimentaram cerca de R$ 4,34 trilhões no país. Quando isoladas as transações ligadas diretamente ao consumo (modelo Person-to-Business ou P2B), o Pix respondeu por R$ 3,5 trilhões, equivalente a 44,6% de participação, enquanto o cartão de crédito movimentou R$ 3,06 trilhões, com 39%. Apesar do avanço do Pix, o cartão de crédito ainda é o principal instrumento de financiamento do consumo de maior valor, sobretudo nas compras parceladas.
Crédito, dados e relacionamento como nova disputa
Para Edson Santos, fundador da Colink, o parcelamento continua sendo uma característica estrutural do varejo brasileiro, e isso ajuda a explicar por que a disputa futura do setor vai além do trilho de pagamento.
“Parcelar uma compra no Brasil é um hábito cultural antes de ser uma função financeira. O cartão construiu sua posição dominante exatamente sobre essa base”, afirma.
Segundo ele, o crescimento do Pix Parcelado e de modelos alternativos de crédito tende a ampliar a competição no setor, mas não substituir o cartão de crédito no curto e médio prazo.
“O Pix Parcelado compete e deve capturar um público que o cartão nunca serviu bem, especialmente via fintechs. Mas a principal disputa da segunda metade desta década será sobre o crédito no trilho Pix, entre modelos de dados, relacionamento e avaliação de risco”, ressalta o executivo, observando que muitos varejistas já vêm tratando crédito como infraestrutura de consumo, e não apenas como apoio comercial às vendas.
Checkout invisível e avanço do crédito embarcado
Embora o Pix tenha registrado ticket médio superior por transação (R$ 442 em 2025, frente a R$ 144 do cartão de crédito), isso não se traduz, necessariamente, em maior relevância estratégica para o varejista: enquanto o Pix concentra os pagamentos pontuais, o cartão de crédito permanece ligado ao parcelamento e à sustentação das vendas de maior valor. A disputa está cada vez mais associada à capacidade do varejista de reduzir o atrito na jornada, aumentar a conversão e integrar o crédito ao momento da decisão.
Esse movimento também aparece no avanço do crédito embarcado. Apesar de cenários recentes mostrarem o BNPL perdendo espaço para o cartão em alguns mercados, no e-commerce brasileiro a presença de soluções de Buy Now Pay Later (BNPL) saltou de 45,8% para 62,7% em 2025, reforçando a busca dos varejistas por modelos de financiamento mais integrados à experiência digital.
Para Edson Santos, o próximo passo dessa evolução é tornar o pagamento cada vez menos visível ao consumidor:
“O checkout não vai apenas ficar mais rápido. Ele tende a deixar de existir como um momento isolado. O pagamento passa a ser parte orgânica da experiência, invisível quando tudo funciona e presente quando precisa ser”, conclui. A discussão passa a envolver quem controla a jornada, o crédito e a captura de valor dentro do ecossistema varejista.
Os números do varejo financeiro em 2025
| Indicador |
Valor |
| Movimentação total em meios eletrônicos |
R$ 4,34 tri |
| Pix no modelo P2B (consumo) |
R$ 3,5 tri / 44,6% |
| Cartão de crédito |
R$ 3,06 tri / 39% |
| Ticket médio Pix |
R$ 442 |
| Ticket médio cartão de crédito |
R$ 144 |
| BNPL no e-commerce brasileiro |
45,8% → 62,7% |
Indicadores compilados a partir de dados do BCB, IBGE, RIs de grandes varejistas e análises de mercado. Fonte: Varejo Finance Report 2026, GIRO.TECH.
O que observar
O recado interessa a varejistas, fintechs de crédito, adquirentes e provedores de checkout. Vale acompanhar como o avanço do Pix Parcelado e dos modelos alternativos de crédito altera a participação do cartão nas compras de maior valor e como soluções de BNPL e crédito embarcado se consolidam na jornada digital, em um ambiente de consumo pressionado e margens reduzidas.
O Varejo Finance Report 2026 foi produzido pela GIRO.TECH com base em dados públicos do Banco Central do Brasil (BCB), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relatórios de RI de grandes varejistas e análises de mercado. O material completo está disponível gratuitamente em hubs.ly/Q04h14kb0.
Fontes: Let’s Money sobre Pix Parcelado e a agenda do BC • Let’s Money sobre BNPL recuando frente ao cartão • Varejo Finance Report 2026 (GIRO.TECH) • Banco Central do Brasil