Eu sei que o tempo tem passado rápido. Quando tudo muda muito em pouco tempo, a memória fica meio turva, como se seis meses tivessem passado em seis dias. Mesmo assim, vale puxar um fio recente, porque ele ajuda a explicar com bastante clareza o que está acontecendo agora.
Lembra do começo das discussões sobre IA nas empresas? Sim, parece que foi “lá atrás”, mas foi ontem. As perguntas eram sempre as mesmas: funciona bem ou não funciona? Alucina ou não alucina? É segura ou não é? Meus dados estão treinando ou não estão? Posso usar? Devo proibir? Quem vai ser responsável?
E, no fim, depois de tanta mesa redonda, tanta opinião e tantos “depende”, a realidade fez o que ela sempre faz. Ela chegou. Chegou para as pessoas. Chegou para as empresas. Chegou para o dia a dia.
É por isso que esse filme me veio à cabeça agora. Estou vendo a mesma história começar de novo, só que com outra personagem principal: o vibe coding.
Na minha visão, vibe coding é algo bastante objetivo. É a democratização da capacidade de criar produtos.
Quem trabalha com tecnologia sabe que a esteira de construção de produto é longa. Começa na ideação, passa por discussão de mercado, protótipo, análise e definição de arquitetura, escrita de histórias, definição de roadmap. Só então chega ao time de desenvolvimento para, de fato, começar a trabalhar. Depois volta para validação, homologação e teste. Não por acaso, o ágil é tão adotado. Mudanças entram no caminho. E só quando a coisa começa a tomar forma é que fica claro como ela realmente vai funcionar.
Vale olhar esse fluxo com calma. A quantidade de pessoas envolvidas. O custo. Não apenas o de execução, mas o de coordenação. O de alinhamento. O custo do “deixa eu te mostrar isso aqui rapidinho” que vira uma reunião de uma hora.
Com vibe coding, uma parte relevante desse caminho encurta. A construção começa mais cedo, com menos intermediários. A solução passa a nascer de forma mais direta. Quem tem a dor e a intenção já consegue materializar uma primeira versão.
Quando falo em democratização, não me refiro apenas a PMs ou a times de produto criando software. Estou falando de mais pessoas dentro da empresa.
O mercado já vinha nessa direção, buscando automação, velocidade, fluxo e menos fricção no dia a dia. Mas agora a mudança é de outra ordem. Não se trata apenas de otimizar o que já existe. Trata-se de quem, de fato, consegue construir.
Quando essa conversa começa, as perguntas aparecem, agora com novas camadas.
“E a segurança?”
“E a governança?”
“E a escalabilidade?”
“E a arquitetura?”
“E a qualidade?”
Essas preocupações são legítimas. Fazem parte de qualquer discussão séria sobre tecnologia que pretende escalar e sustentar valor no tempo.
O ponto central, no entanto, é outro. Segurança, governança e escalabilidade não são impeditivos da mudança. São elementos de projeto. E, quando tratados desde a base, deixam de ser risco para se tornarem vantagem competitiva.
Por isso, a questão não é “adotar ou não adotar”. Nem “liberar ou proibir”, como se fosse uma escolha filosófica. A questão é sair de uma posição negacionista. Não dá para negar o que já está acontecendo.
O debate maduro é outro. Como fazer isso do melhor jeito possível?
E, honestamente, esse talvez seja um dos maiores espaços de negócio e inovação que se abriu nos últimos anos. A governança de um mundo em que cada vez mais pessoas terão capacidade de gerar soluções dentro das empresas.
Para sair da abstração, vale ir para o concreto.
Um Sistema Criado em um Dia
No fim do ano, com um pouco mais de tempo. Férias, mas não exatamente. Eu já vinha usando essas ferramentas, estudando bastante, testando, entendendo limites e possibilidades. Conversando com outras empresas e pegando referências de quem já usa com mais maturidade, senti segurança para fazer algo e publicar internamente.
Eu fiz um sistema.
Um portal de RH conectado a um portal de finanças.
E quando digo “fiz”, é literal. Tela, fluxo, lógica, organização, estrutura. Isso gerou um ganho enorme de eficiência para análises, pesquisas, apresentações, gestão de metas, fechamento automático de folha, contratos, ausências, aprovações.
O mais curioso, ou mais absurdo, dependendo do ponto de vista, é que isso foi feito em um dia.
Depois de pronto, aconteceu exatamente o que um bom produto provoca. Surgiram discussões, ajustes, novas sugestões das pessoas que começaram a usar. O produto passou a existir e, com ele, veio o refinamento.
Naturalmente, vieram também os questionamentos técnicos do meu time, como sempre acontece quando algo começa a ganhar escala.
“Que arquitetura você usou?”
“Qual linguagem?”
“Isso está aderente à nossa arquitetura?”
“Quais integrações você fez?”
“Onde isso roda?”
“Como você publicou?”
“Como fica segurança e acesso?”
Para contextualizar, desenhei até o logo e a linguagem visual, como ponto de partida. E, sim, não usei exatamente a arquitetura que costumamos adotar.
A beleza disso é que não virou “joga fora”. Virou “agora desenvolvemos em cima do que já existe”.
Passei para o time e, juntos, usamos nossa plataforma de orquestração e automação para colocar tudo dentro do padrão, publicar na nuvem, adaptar e ajustar o que precisava ser ajustado.
Ou seja, não houve substituição do time técnico. Houve aceleração do nascimento.
O caminho entre intenção e primeira versão funcional ficou mais curto.
A partir daí, o time fez o que faz de melhor. Garantir robustez, segurança, escala e governança.
Essa é, para mim, uma virada de chave que o mercado começa a assimilar.






