A maior transferência de riqueza da história já começou, e ela não espera o inventário. Segundo nova pesquisa da Visa, 66% dos boomers americanos querem aproveitar o patrimônio ou ver os herdeiros aproveitarem ainda em vida, contra 34% que planejam preservar a herança para depois da morte. São US$ 36 trilhões mudando de mãos em 20 anos.
A herança americana em números
| Indicador |
Valor |
| Total transferido (20 anos) |
US$ 36 tri |
| Por domicílio herdeiro |
~US$ 515 mil |
| Vira consumo / é poupado ou investido |
US$ 8 tri / US$ 28 tri |
| Boomers: aproveitar em vida / preservar |
66% / 34% |
Pesquisa Visa sobre a transferência de riqueza nos EUA. Fonte: Visa
Por que os boomers estão gastando em vida
A pesquisa mostra que a geração mais velha não está apenas deixando bens no testamento, está antecipando a transferência. Uma em cada quatro pessoas da geração millennial que compraram casa recebeu ajuda dos pais na entrada, e 26% dizem que não teriam conseguido comprar sem esse apoio. No turismo, 28% dos avós já fizeram uma viagem com os netos sem a geração do meio, e 35% pretendem fazer nos próximos três anos.
Esse comportamento antecipado tem efeito prático no consumo. A Visa estima que o impacto se concentra em habitação, automóveis, viagens e varejo, categorias em que os consumidores já tomam grandes decisões financeiras. Só em automóveis, a projeção é de um acréscimo médio de 6,4% ao ano nos gastos ao longo das próximas duas décadas.
O boom de consumo que não vem
Aqui está o ponto que contraria a narrativa fácil da “onda de gastos”. Dos US$ 36 trilhões, a Visa calcula que apenas US$ 8 trilhões devem virar consumo. Os outros US$ 28 trilhões tendem a ser poupados ou investidos, porque quase 75% dos herdeiros já têm patrimônio acima da mediana e estão financeiramente seguros. A herança, para a maioria, engorda a reserva, não a fatura do cartão.
“Para negócios em setores de alto valor como imóveis e viagens, isso não é uma tendência futura para observar. Já está influenciando decisões de consumo e definindo onde o crescimento será distribuído nos próximos anos”, disse Wayne Best, economista-chefe da Visa, em tradução livre. O padrão de poupar mais que gastar não é exclusivo dos herdeiros ricos: no Brasil, dados já mostram que a Geração Z poupa mais que as gerações anteriores, ao mesmo tempo em que migra o gasto para o digital, como no dado de que a Gen Z já paga com carteira digital em 36% das compras.
O que observar
O movimento não é um evento futuro, é uma corrente que já corre por baixo do mercado. A disputa real fica entre quem custodia esse patrimônio: gestoras de patrimônio, bancos tradicionais e fintechs de investimento brigam por herdeiros mais digitais, menos fiéis à marca e mais atentos a governança. Vale acompanhar se a captação desse dinheiro vai depender menos de agência física e mais de interface, dados em tempo real e integração de pagamentos com investimento.
No Brasil, a mesma dinâmica geracional já aparece: pesquisas apontam que 9 em cada 10 jovens de renda alta querem comprar imóvel, o que reproduz aqui o gatilho de habitação que a Visa vê lá fora, e casas como o private banking que chegou a R$ 1 trilhão em ativos mostram a escala do bolo em disputa. A pergunta que fica é se o Open Finance encurta a distância entre quem herda e quem oferece o melhor lugar para guardar, num momento em que a lealdade se ganha no digital, não no histórico de relacionamento.
Fontes: FF News • Visa • Bloomberg Línea • Let’s Money • Let’s Money