Cinco anos após seu lançamento no Brasil, o Open Finance está sendo usado para ir além do score tradicional: bancos, birôs e fintechs de crédito passam a combinar dados históricos com o comportamento financeiro atual do consumidor, beneficiando especialmente negativados, autônomos e quem não tem histórico formal de crédito.
Birô tradicional x Open Finance na análise de crédito
| Dimensão |
Birô tradicional |
Open Finance |
| Dados usados |
Histórico de dívidas, pagamentos, restrições |
Renda recorrente, gastos, investimentos, comprometimento |
| Tipo de análise |
Binária: aprova ou nega |
Contextual: comportamento, capacidade e momento |
| Perfis beneficiados |
Clientes com histórico consolidado |
Autônomos, negativados recuperados, sem histórico formal |
Análise baseada em entrevistas com especialistas. Fonte: Valor Investe
Do histórico ao comportamento: a virada na análise de crédito
O modelo tradicional de score avalia principalmente passado: inadimplência, dívidas e histórico de pagamentos. O Open Finance adiciona uma camada diferente. Dois clientes com o mesmo score podem ter perfis de risco completamente opostos: um pode ter uma restrição antiga mas apresentar renda estável hoje; outro pode ter score limpo mas redirecionar parte relevante da renda para apostas.
A ferramenta ajuda a separar com clareza perfis que parecem parecidos nos modelos tradicionais, mas têm comportamentos financeiros muito diferentes na prática. Para Ana Carla Abrão, diretora da Associação Open Finance Brasil, o sistema funciona porque gera “mais informações e informações mais atualizadas e completas”, afirmou. O uso do Open Finance como ferramenta para reduzir juros e organizar contas ainda é subutilizado, com apenas 37% dos brasileiros aderindo ao sistema.
80 milhões de inadimplentes e o sinal que o score não captura
O Brasil tem mais de 80 milhões de inadimplentes, segundo o Serasa. Para parte desse grupo, o score não reflete a situação financeira atual: a restrição pode ser antiga, enquanto a renda é estável hoje. Segundo Bernardo Meirelles, chefe de vendas da Klavi, “já vimos casos em que mais de 50% das pessoas que seriam inicialmente negadas puderam ser reavaliadas positivamente a partir de dados de Open Finance, sempre dependendo da política de risco de cada instituição. Isso não significa aprovar todo mundo, mas sim tomar uma decisão mais justa e precisa”, disse.
O argumento vale especialmente para autônomos e motoristas por aplicativo, que têm renda recorrente mas sem comprovação formal. Ricardo Thomaziello, diretor de analytics do Serasa Experian, explica que ao compartilhar dados, os autônomos “permitem que seus rendimentos sejam parte da sua equação, o que permite a maior inclusão no sistema financeiro e ao acesso ao crédito”. A empresa já usa o Open Finance para complementar a análise de perfis com pouco histórico nos modelos tradicionais, incluindo a calibração dos modelos de score com sinais mais atualizados.
O que observar
O compartilhamento de dados não garante aprovação nem taxas menores automaticamente: consumidores com risco elevado podem ter condições piores ao revelar seu comportamento financeiro real. A Febraban deixa claro que o benefício depende do perfil. O nó principal não é técnico, mas de adoção: com apenas 37% dos brasileiros usando o Open Finance, o potencial de inclusão financeira permanece represado.
A cada nova integração entre birôs e dados transacionais, a qualidade das decisões tende a aumentar, mas também aumenta a assimetria entre consumidores que optam por compartilhar dados e os que não o fazem, criando uma nova forma de diferenciação de risco no mercado de crédito.
Fontes: Valor Investe • Let’s Money • Let’s Money