Cinco anos após sua criação, o Open Finance para Pessoa Jurídica acumula 159% de crescimento em consentimentos em um ano, mas atinge apenas 1,4 milhão de empresas num universo de 40 milhões no Simples Nacional. O principal gargalo não é falta de interesse: é a burocracia do consentimento para empresas com mais de um sócio, que trava em silêncio, expira sem aviso e obriga recomeçar do zero.
Open Finance PJ em números
| Indicador |
Dado |
| Empresas com dados compartilhados |
1,4 milhão |
| Crescimento em consentimentos (1 ano) |
+159% |
| Base potencial (Simples Nacional) |
40 milhões de empresas |
| Principal gargalo identificado |
Consentimento com múltiplos sócios |
| Próximo marco |
Planejamento estratégico a partir de agosto 2026 |
Panorama do Open Finance PJ em 2026. Fonte: Valor Investe
O limbo dos múltiplos sócios
Para empresas com mais de um sócio, o fluxo de consentimento exige que todos os representantes assinem. O banco transmissor concentra essa informação, mas não há padronização sobre como notificar os sócios pendentes, e cada instituição segue sua própria política de risco. Se um sócio não conclui a assinatura, o sistema simplesmente trava, expira e obriga a reiniciar do zero, sem indicar onde o processo parou ou quem precisa agir.
A diferença em relação ao SCR, o Sistema de Informações de Crédito do Banco Central atualmente utilizado pelas instituições, é estrutural. “É uma informação binária: quanto tem e quanto falta para pagar. No Open Finance, você tem acesso aos recebimentos e consegue fazer uma previsibilidade de recebimento com base no que eles receberam nos últimos meses, além de uma maior granularidade sobre dados”, disse Gustavo Lino, diretor-executivo da INIT, associação que representa os Iniciadores de Transação de Pagamentos. Para ele, há uma dimensão política além da técnica: grandes instituições transmissoras têm pouco incentivo para facilitar um processo que, bem-sucedido, expõe sua base de clientes PJ à portabilidade para concorrentes.
O MEI entre CPF e CNPJ
Para o Microempreendedor Individual, o gargalo de múltiplos sócios já foi equacionado. Persiste, porém, outro obstáculo: o Open Finance exige login com CNPJ para compartilhar dados PJ, e a conta vinculada precisa ser a do CNPJ. Na prática, muitos MEIs movimentam o dinheiro do negócio em conta PF. Esses recursos ficam invisíveis ao sistema, e consequentemente, fora do score de crédito empresarial. A klavi, empresa de inteligência de dados do Open Finance, aponta que a jornada de consentimento foi desenhada para um único usuário, o que funciona para PF mas não se adapta às camadas de autorização das empresas.
Para quem tem múltiplos CNPJs, o sistema já entrega uma vantagem concreta: consolidar saldo e fluxo de caixa de dezenas ou centenas de empresas numa única tela, de forma automática. “Esse é o maior gargalo hoje da PJ [autorização de mais de um sócio]. Nós estamos justamente nessa fase que estamos diagnosticando todos os problemas para poder catalogar esses problemas e resolver”, afirmou Ana Carla Abrão, diretora da Associação Open Finance. A partir de agosto de 2026, demandas do setor entram no planejamento estratégico do Open Finance, com participação de bancos, fintechs e cooperativas.
O que observar
O gargalo técnico carrega uma camada política: instituições que hoje transmitem dados PJ têm pouco incentivo para simplificar um processo que, se bem-sucedido, facilita a migração de clientes para concorrentes. A questão é se o BC vai impor um padrão técnico obrigatório para o consentimento assíncrono de múltiplos sócios, com prazo definido, ou se vai deixar a resolução a cargo de cada participante. O histórico do Open Finance indica que sem obrigatoriedade, as velocidades de implementação divergem.
O planejamento estratégico de agosto de 2026 é o próximo ponto de inflexão. Se o setor convergir num cronograma de adequação, pequenas e médias empresas podem começar a sentir o impacto no acesso ao crédito em 2027. O empreendedor que mistura contas PF e PJ permanece fora desse debate por ora, o que sinaliza que esse público, incluindo os MEIs que movimentam o negócio em conta PF, ainda vai esperar mais.
Fontes: Valor Investe • Let’s Money: INIT e o futuro do ITP • Let’s Money: Klavi e Open Finance